O Estatismo do Brasileiro

Jorge Alexandre / 28/12/2017 - 06h00

Toda vez que surgem novos dados sobre o suposto apego do brasileiro ao estatismo, retoma-se na mídia e nas redes sociais um debate sobre a excepcionalidade do nosso caso. Há uma série de trabalhos no meio acadêmico e fora dele que sempre deu asas a essa especulação. A explicação estaria na herança cultural ibérica e, mais especificamente, portuguesa.

Esta semana, essa discussão foi retomada com a divulgação de dados do Datafolha sobre o apoio dos brasileiros às empresas estatais e a consequente oposição às privatizações. Todavia, as análises, mesmo acadêmicas, pecam pela falta de uma perspectiva comparativa. Há, de fato, uma excepcionalidade no caso do Brasil? O brasileiro é, realmente, apegado ao estatismo de forma atípica?

A Universidade Vanderbilt, nos EUA, realiza uma pesquisa com periodicidade bianual, chamada “Barômetro das Américas”. O questionário básico dessa pesquisa conta com cinco questões que são úteis para medir apoio ao estatismo. Comparei o Brasil com mais 16 países do continente americano e do Caribe, utilizando tais dados. São nove países hispânicos (Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, México, Paraguai, Peru e Uruguai), cinco países não latinos da região do Caribe e da América Central (Belize, Guiana, Jamaica, Suriname e Trinidad e Tobago) e os dois países com alto nível de desenvolvimento da América do Norte.

Utilizando uma análise estatística multivariada, fiz um indicador sintético de estatismo com as cinco questões do questionário e padronizei a escala para variar potencialmente entre 0 e 100 pontos. O escore do Brasil foi de 50,93 pontos. Os nove países hispânicos têm uma média de 52,94 pontos (pouco superior ao escore brasileiro). A média do grupo dos cinco países não latinos do Caribe e da América Central foi de 53,71 pontos (ligeiramente superior à dos nove países hispânicos). Entre os países desenvolvidos da América do Norte, contudo, os escores são bem mais baixos (no Canadá é 37,63 pontos e nos EUA 16,46 pontos).

Esta breve análise comparativa mostra que não há excepcionalidade no caso brasileiro. Muito pelo contrário, pois se há um caso realmente excepcional é o dos EUA (embora o Canadá tenha um escore bem mais baixo do que aquele dos países do Caribe e da América Latina, sua pontuação é mais do dobro daquela dos EUA). Não há qualquer diferença relevante entre os países latinos e não latinos que não têm elevado nível de desenvolvimento.

Ou seja, o estatismo não está na herança cultural ibérica, mas em não se ter alcançado um nível elevado de desenvolvimento socioeconômico. Portanto, recomendo aos neoliberais: parem de pensar “com espírito de Miami” (parafraseando Flávio Dino) e vão à luta para tentar conquistar corações e mentes!

 

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