O mito da meritocracia e o conflito de status

Jorge Alexandre / 18/05/2017 - 06h00

O pensador alemão Jürgen Habermas propôs uma análise muito interessante sobre a meritocracia. Para ele, o laissez faire, importante ideologia do século XIX, foi substituído pela meritocracia, com o aprofundamento do processo de burocratização das sociedades e com a substituição do típico empresário capitalista por tecnocratas cheios de credenciais universitárias. A meritocracia seria, para ele, uma ideologia de dominação muito mais eficaz do que o laissez faire.

A partir do trabalho do sociólogo russo Pitirim Sorokin, na primeira metade do século XX, a pesquisa sociológica avançou muito com o desenvolvimento das tecnologias computacionais e dos aplicativos de análise estatística, permitindo uma consolidação do conhecimento sobre a mobilidade social. Nossas pesquisas, em nível global, têm demonstrado que a meritocracia não passa de um mito! A realização socioeconômica (o que alcançamos ao longo da vida, em termos educacionais e ocupacionais) ainda depende muito do padrão de nossas famílias. O que se tornou cada dia mais relevante é que o sucesso na vida, para a absoluta maioria de nós, depende das características da nossa família de origem, porém passa pela educação. Nas classes sociais mais privilegiadas, é entre os chamados “profissionais” que a educação é mais relevante. Esse segmento é comumente rotulado no Brasil como “classe média tradicional”.

O professor Milton Santos afirmou que um dos problemas do Brasil é que sua classe média não quer direitos, quer privilégios. Estudiosos da sociedade europeia mostraram que seu extraordinário desenvolvimento social só foi possível em função de que a classe média se aliou à classe trabalhadora na busca por direitos universais, como educação e saúde pública de qualidade. De fato, isso nunca ocorreu no Brasil, onde a classe média se agarra a escolas privadas e a planos de saúde. Há razões históricas para a classe média profissional brasileira ser o que é, de acordo com o professor Edmundo Campos Coelho, um estrato social saturado de “valores excludentes, antidemocráticos, antipovo”.

O significativo processo de desenvolvimento social ocorrido no Brasil a partir da Constituição de 1988, e que se acelerou na década passada, ampliou o acesso a alguns tradicionais privilégios da classe média tradicional, como as universidades públicas. Talvez esse processo de transformação dos privilégios da “classe média” em direitos possa nos ajudar a entender a ebulição dos fortes conflitos observados a partir de 2013. Conflitos políticos que derivam de conflitos de status, da disputa por posições sociais cujo ingresso deriva, fundamentalmente, do acesso às melhores oportunidades educacionais!

 

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