Poder Estrutural

Jorge Alexandre / 10/08/2017 - 06h00

Foi deveras interessante a fala do ministro Barroso, do STF, em uma palestra recente, ao se referir a uma suposta “operação abafa” das investigações sobre corrupção: “Essas pessoas têm aliados importantes em toda parte, nos altos escalões da República, na imprensa e nos lugares onde a gente menos imagina”. Talvez sem querer, o Ministro explicitou o fundamento de uma elite política com poder estrutural. 

Uma série de acontecimentos tem evidenciado esse poder, a saber: a) em fevereiro, o STF decidiu manter consigo os processos contra o ex-presidente Sarney, algo que sempre foi negado ao ex-presidente Lula; b) Temer decidiu não nomear o procurador mais votado para ocupar o cargo de PGR e isso não causou qualquer escândalo junto à mídia (algo que não deveria mesmo causar qualquer espécie, mas é o que teria ocorrido se o ato tivesse sido efetuado por um presidente de esquerda); c) em maio, o juiz Moro absolveu a esposa de Eduardo Cunha ao apontar que o Ministério Público tinha falhado ao não produzir provas, pois a acusação de lavagem de dinheiro exigiria que se provasse o “caminho do dinheiro”, benefício que claramente tem sido negado ao ex-presidente Lula; d) ao passo que o então senador Delcídio Amaral foi mandado para a cadeia por ordem do STF, o mesmo não ocorreu com o senador Aécio Neves, tendo esse sido até mesmo autorizado a retomar suas atividades parlamentares, apesar das abundantes provas materiais contra ele (na verdade, julgo que a decisão quanto a esse segundo caso foi correta, o que lamento é que o mesmo benefício não tenha sido dado a Delcídio Amaral); e) apesar de todas as provas materiais contra Temer, ele foi absolvido tanto por um julgamento no judiciário (TSE) quanto no legislativo (Câmara dos Deputados), ao passo que a presidenta Dilma foi afastada do cargo com base em uma acusação absolutamente sem fundamento.

Na segunda metade do século XX, o sociólogo britânico Ralph Miliband e o sociólogo americano Wright Mills atualizaram as teorias das elites do francês Vilfredo Pareto e do italiano Gaetano Mosca. Um dos pontos que destacaram foi o elemento estrutural do poder político das elites tradicionais. Essas elites contam com uma sofisticada e enraizada estrutura de relações sociais de longuíssimo prazo, redes de sociabilidade que são transmitidas intergeracionalmente, criando o sistema de alianças citado pelo ministro Barroso. Esse poder estrutural contrasta com um poder puramente conjuntural das lideranças políticas com origem no movimento trabalhista. Ou seja, ao passo que as lideranças políticas com origem no movimento trabalhista só têm poder quando no governo, as elites tradicionais têm um poder que se mantém mesmo quando não se ocupa cargos públicos.

 

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