Raça e Desigualdade

Jorge Alexandre / 03/08/2017 - 06h00

Recentemente, as prestigiosas universidades estaduais de São Paulo aprovaram a implantação de cotas raciais no vestibular da Fuvest (que seleciona alunos para essas universidades). Chama atenção a reação a essa decisão. A questão da desigualdade racial é um fato muito mal entendido pelas pessoas em geral.

O primeiro equívoco quanto à questão da desigualdade racial diz respeito ao próprio conceito de raça. É verdade que os geneticistas já provaram ser raça uma categoria biologicamente desprezível. Todavia, a questão da desigualdade socioeconômica entre grupos de raça ou cor está relacionada a aspectos sociais, não tem nada a ver com a biologia. O que interessa aqui é o fato de que as pessoas identificam diferenças fenotípicas ao se observarem e ao observarem outrem.

Um segundo equívoco é pensar que a questão da desigualdade racial é um anacronismo, que seria apenas uma consequência inercial do passado escravocrata. Desde a realização da PNAD-1976 (primeiro grande levantamento sociodemográfico que permitiu analisar de forma adequada a questão racial), tem sido possível demonstrar o equívoco que é pensar a questão da desigualdade racial como um anacronismo, pois ficou evidenciada a sua reprodução permanente.

Um terceiro equívoco é ver a desigualdade racial como um efeito espúrio, que derivaria da desigualdade de classes. Isto é, haveria uma aparente desigualdade racial pelo fato de negros estarem sobre representados entre os mais pobres. Sendo assim, ao se combater a desigualdade de classe se combateria a desigualdade racial. Na verdade, a desigualdade racial está muito mais presente entre estratos sociais de maior nível socioeconômico. Os estudos sociológicos mais recentes no Brasil mostram que, quanto maior o nível socioeconômico, maior a desigualdade racial.
Um quarto equívoco é acreditar que a simples melhoria do sistema educacional público resolveria o problema da desigualdade educacional entre negros e brancos no Brasil. É verdade que a desigualdade educacional é responsável pela maior parte da desigualdade racial no país. Todavia, infelizmente, o que tanto os dados sociodemográficos quanto os dados sobre desempenho educacional (como os do SAEB, por exemplo) mostram é que a elevação da qualidade da educação pública tende a aumentar as desigualdades educacionais tanto em termos de estrados (ou classes) quanto em termos de grupos raciais.

Portanto, a questão da desigualdade racial não é nada simples. A estratégia utilizada hoje no Brasil – ou seja, o sistema de cotas – tem demonstrado ser eficaz (vide a queda da desigualdade racial demonstrada nas análises com dados mais recentes). Até que se consiga descobrir algo melhor, a implantação de cotas parece ser mesmo a solução mais recomendável.

 

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