É o crédito, meirelles

José Antônio Bicalho / 15/03/2017 - 20h53

Na economia existem o que chamamos de ‘indicadores antecedentes’, que apontam, antes mesmo do resultado do PIB, em qual direção caminha a produção da riqueza do país, se para o crescimento ou para a depressão.

Esses indicadores não oferecem precisão científica, mas sinalizam tendências com grande assertividade. Entre os mais usuais estão as vendas papelão ondulado (utilizado na fabricação de embalagens), o consumo de energia elétrica, a contratação de frete rodoviário, entre outros. O sobe e desce desses indicadores indica antecipadamente o ritmo da produção industrial e do consumo, e por relação de causa e efeito, de toda a economia.

Pois bem. Um dos principais destes ‘indicadores antecedentes’ é a concessão de crédito. A evolução do crédito mostra basicamente duas coisas: o ritmo do consumo das famílias e dos investimentos das empresas. Particularmente, prefiro o crédito a outros indicadores antecedentes por conta de sua maior complexidade, que permite o cruzamento da concessão com a evolução do estoque, o PIB e os juros.

Ideologia retrógrada e incompetência impedem o uso do crédito para a retomada da economia

Vamos, então, analisar os últimos dados de crédito disponíveis no Banco Central, referentes a janeiro. A primeira constatação é do recuo continuado do total de crédito concedido no país, sem qualquer sinal de recuperação. A queda em janeiro é de 17,3% na comparação com o mês imediatamente anterior, o que é explicado pelas vendas financiadas de Natal em Dezembro. Mas, no acumulado de 12 meses até janeiro, comparado aos 12 meses imediatamente anteriores, o encolhimento do crédito ainda é de 7,1%.

Trabalhando apenas com essa comparação de 12 meses terminados em janeiro contra os 12 meses antecedentes, temos ainda que a queda no crédito para empresas foi de 14,5%, e para pessoas físicas, de 0,4%. No estoque de crédito (ou seja, no somatório de todos os empréstimos concedidos no país, independentemente da data da contratação) a queda é de 3,9%, para R$ 3,073 trilhões.

Apesar dos juros absurdos praticados no país e do desemprego, a inadimplência ainda está sob controle. Os inadimplentes, que representavam 3,5% do total da carteira de crédito em janeiro de 2016, saltaram para o equivalente a 3,7% em janeiro último.

Os números mostram que o crédito não aponta qualquer sinal de recuperação econômica. Mas existe um indicador interessantíssimo, que sinaliza a potencialidade do crédito como combustível para a retomada. O volume total de empréstimos concedidos no Brasil encontra-se no baixíssimo patamar de 48,7% quando confrontado com o PIB. Em janeiro de 2016, essa relação era de 53,7%. Em países desenvolvidos, o crédito usualmente ultrapassa os 100% do PIB, sendo que nos EUA, somente o crédito imobiliário ultrapassa o total da riqueza produzida anualmente naquele país.

Por aqui, os empréstimos tomados pelas pessoas físicas são equivalentes a apenas 24,8% do PIB, e pelas empresas, a 23,9% do PIB.

O que nos mostra tais números é que existe amplo espaço para que o crédito seja utilizado como motor para a retomada do crescimento, basta que o governo abra algumas torneiras de liquidez e force a queda dos juros, tanto da taxa básica (Selic) quanto na ponta do tomador final, por meio de pressão concorrencial dos bancos públicos Caixa e Banco do Brasil. Isso foi feito com sucesso no primeiro governo Dilma e inexplicavelmente descontinuado no segundo governo e no atual de Temer. Não existirá perspectiva de utilização plena do crédito se mantidas as taxas escorchantes praticadas atualmente pelo cartel dos bancos comerciais.

O caminho é obvio: liquidez para os bancos e oferta de taxas razoáveis para os consumidores. O ministro da Fazenda Henrique Meirelles tomará este caminho? Logicamente que não, por um misto de ideologia retrógrada e incompetência.

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