Óleo de Peroba para Temer

José Antônio Bicalho / 17/03/2017 - 21h25

Vocês lembram do escândalo da parabólica? O caso não tem nada diretamente ligado ao assunto que tratarei abaixo, que é o desemprego, mas a história é deliciosa e, como vocês verão, serve para traçar um paralelo com o caráter do atual governo.

Vamos relembrar: Numa noite de setembro de 94 (recorri ao Google para lembrar datas e detalhes), o então ministro da Fazenda Rubens Ricupero estava nos estúdios da Rede Globo para ser entrevistado pelo jornalista Carlos Monforte. O presidente era Fernando Henrique, que naquele mesmo ano concorreria à reeleição e venceria em primeiro turno. Jornalista e entrevistado se preparavam para entrar ao vivo. O problema é que nenhum dos dois sabia que a conversa de bastidor já estava sendo transmitida via satélite por canal privativo da Embratel, recebido apenas por quem tinha antena parabólica.

A certa altura, Ricupero disse “eu não tenho escrúpulos; o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”. No dia seguinte veio o massacre. A gravação, que levantava sérias dúvidas sobre o caráter do ministro, foi divulgada por todos os telejornais, de todas as emissoras. O PT, mirando o governo FH, transformou a frase em escândalo. Ricupero, uma pessoa reconhecidamente descente, competente e bem intencionada, foi massacrado e obrigado a renunciar por conta do vazamento.

Pois bem, Ricupero era uma boa pessoa, mas falou bobagem e pagou a língua de maneira desproporcional. Já o governo Temer não é composto por pessoas boas, a começar pelo próprio presidente, e pratica deslavadamente a política do “o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”. Deveria renunciar, como fez Ricupero.

Ontem, o presidente Temer fez questão de anunciar pessoalmente o saldo positivo de empregos do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) de fevereiro. Com total desfaçatez, comemorou a abertura de novos 35,6 mil postos de trabalho em todo o país. Disse que acredita que o Brasil recuperará a classificação de grau de investimento nas agências de rating, comentou a melhora da nota brasileira de negativa para estável pela Moody’s e disse ter absoluta convicção na retomada do emprego e do crescimento.

Por outro lado, se recusou veementemente a comentar o envolvimento de seis ministros nas investigações da “Lava Jato” e de seus colaboradores e apoiadores que estão na ‘segunda lista de Janot’ e são alvo de pedidos de inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF). “O que é ruim a gente esconde”, poderá ter dito Temer, em particular, para algum assessor após a entrevista coletiva.

Mas não é só na política que Temer tergiversa. Ele também o faz na economia. O fato é que os 35,6 mil empregos de fevereiro não fazem nem cócegas no 1,149 milhão de postos de trabalho que foram cortados apenas nos últimos 12 meses. Que o saldo no ano acumulado de janeiro e fevereiro é negativo em 5,5 mil vagas. Que se compararmos o número de empregos com os meses de fevereiro anteriores, retornamos ao nível de 2012. E que o único setor a apresentar crescimento significativo de empregos foi o de serviços, com 50,6 mil vagas, compensando a queda de praticamente todos os demais (a indústria ficou estável, com levíssima alta).

Não, senhor Temer, você não me engana. Ainda não existe qualquer sinal de recuperação estruturada da economia. Essa recuperação só virá quando forem implementadas políticas voltadas para o crescimento. Por hora, Henrique Meirelles (Fazenda) e Ilan Goldfajn (Banco Central) fazem o contrário disso.

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