Os bancos provam do próprio veneno

José Antônio Bicalho / 15/03/2017 - 20h49

Bancos são um tema recorrente dessa coluna por conta dos juros absurdos praticados no Brasil. Em uma delas, publicada em meados do ano passado, afirmei que se os bancos não reduzissem suas taxas, chegaria o momento em que a inadimplência começaria a comer o lucro de maneira incontrolável, colocando todo sistema em risco. Pois é. Esse momento chegou.

É impressionante como a ganância cega as pessoas, mesmo aquelas que ocupam cargos estratégicos em grandes empresas. Os bancos são um exemplo acabado disso. Instigados por gordas comissões, seus executivos [TXT_COL]agem como loucos, mirando unicamente o curto prazo e o maior lucro possível, sem se importar com o futuro.

Os bancos não souberam a hora de parar. Não conseguiram controlar o apetite. No passado recente, cada vez que subiam os juros, mais ganhavam. A inadimplência t[/TXT_COL]ambém só fazia aumentar, mas era compensada pelo lucro gerado pelos bons pagadores. Os bancos fizeram isso até que as taxas se tornassem impagáveis e a balança se desequilibrasse para o lado dos maus pagadores. Agora, a inadimplência se tornou uma epidemia impossível de controlar.

Os números
Vamos aos números que mostram como o sistema e[/TXT_COL]stá em risco. Ontem, o Banco Central divulgou que as perdas geradas pela inadimplência consumiram mais da metade do spread bancário (a diferença entre o que os bancos pagam na captação de dinheiro e o que cobram nos empréstimos). No crédito livre (aquele sem destinação específica, ao contrário, por exemplo, do crédito imobiliário), 55,3% do spread foi usado para cobrir inadimplência. E, logicamente, a fatia do spread que compõe o lucro dos bancos caiu no ano passado.

Os bancos radicalizam nos juros, mesmo estando evidente que exageraram na dose

A abertura das planilhas mostra que a inadimplência foi o único entre os cinco principais indicadores acompanhados pelo BC que aumentou. Os quatro outros – lucro, impostos pagos, depósitos compulsórios e custos administrados – tiveram queda em 2016.

E, ante a ameaça de perda de controle da inadimplência, adivinhem o que os bancos fizeram? Isso, aumentaram ainda mais os juros. Parece piada, mas não é. Eles tentaram novamente recuperar margens aumentando a carga sobre os bons pagadores. Ou seja, radicalizaram, mesmo estando evidente que exageraram na dose, que a estratégia está errada e que a queda nos lucros é fruto justamente dessa ganância desmedida. No ano passado, para se contraporem ao crescimento da inadimplência, os bancos aumentaram o spread médio do crédito em 29 pontos percentuais.

Tomador final
Não vou detalhar novamente aqui o que isso significa para o tomador final, o que já fiz inúmeras vezes em outras colunas e que já está ficando meio repetitivo. Só vou lembrar que o juro médio do cartão de crédito no Brasil está acima dos 500% ao ano (500%!!!) e do cheque especial ultrapassa os 400% ao ano (400%!!!).

E também lembrar (desculpem novamente a repetição) que estas taxas só são possíveis de serem praticadas porque o setor bancário brasileiro é um cartel formado por cinco grandes bancos (Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal) que combinam entre si as taxas que praticam. E que formação de cartel é crime passível de prisão. Mas vocês acham que banqueiro tem medo disso?

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