Sem Dilma, Brasil recebe elogios da The Economist

José Antônio Bicalho / 20/03/2017 - 15h48

Farei, hoje, coisa que detesto: repercutir o que a imprensa internacional diz de nós. E, pior, repercutir o que a The Economist diz de nós.

Respeitei por muitos anos essa revista conservadora inglesa de economia e política internacional. Só quem tem cinquenta anos ou mais vai se lembrar, mas no final da década de 80 existia uma boa revista semanal no Brasil chamada ‘Senhor’, que também tinha uma pegada forte de economia e republicava grandes matérias traduzidas da The Economist. Eu, ainda estudante, assinava a Senhor e ficava maravilhado com a profundidade, tamanho e qualidade dos textos da revista inglesa.

Não sei se pela minha pouca experiência não conseguia enxergar os vícios da The Economist. Prefiro pensar que não. Que a revista era conservadora, mas séria e de qualidade. O fato é que de uns anos para cá a The Economist caiu numa arrogância manipuladora incrível, a ponto de no primeiro governo Dilma fazer campanha pela derrubada do então ministro da Fazenda Guido Mantega.

Lembram-se da capa da revista com a imagem do Cristo Redentor como se fosse um foguete desgovernado embicando? E do arrogante editorial no qual a revista reconhecia que havia criado constrangimento para Dilma demitir Mantega, e que a partir daquela edição passaria a defender a permanência do ministro apenas para não criar embaraços à demissão?
Uma pretensão desmedida e um acinte à autonomia dos brasileiros. E um humor de péssimo gosto.

Miopia
Pois bem. Essa revista voltou a falar do Brasil na edição distribuída e publicada em seu site na sexta-feira passada. O problema agora não é chacota nem golpismo, mas miopia e superficialidade. Vamos lá.

Dessa vez, a tese da revista é a de que o pior já passou para as economias do Brasil e da Rússia. Anuncia que depois do enorme mergulho na recessão, as duas maiores economias emergentes do mundo devem voltar a crescer neste ano. Irão, inclusive, contribuir para a expansão do PIB mundial.

A capa da revista traz uma arte com sete balões subindo ao céu, cada qual com a bandeira de uma das maiores economias do mundo, entre elas o Brasil. Puxando o grupo, grande e inflado, o balão dos Estados Unidos.

Vá se saber quais interesses estão por trás dessa propaganda otimista para o país

O texto afirma que depois do PIB brasileiro encolher por oito trimestres consecutivos, o ambiente começa a mudar. Os sinais seriam a inflação em queda e a redução dos juros. Passados quase 10 anos da crise financeira de 2008, existiria, pela primeira vez, a perspectiva de uma expansão sincronizada entre países desenvolvidos e mercados emergentes. “Todos os motores estão funcionando de uma vez”, afirma a reportagem.

Verdades e mentiras
Seria maravilhoso se fosse verdade. É fato que existem sinais para otimismo no mundo. Conforme a própria revista ressalta, o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) elevou os juros na semana passada, pela segunda vez em três meses, graças ao vigor da retomada da economia americana, as preocupações com a atividade da China se reduziram por conta dos programas de investimento em infraestrutura e na zona do euro o desemprego chegou ao menor patamar desde 2009.

Mas e o Brasil? O déficit público continua gigantesco (perspectiva de mais de R$ 140 bilhões neste ano), a dívida sobe em ritmo descontrolado, a inflação cai justamente pela inanição da economia, a queda da taxa Selic é lenta e não chega na ponta de crédito para empresas e consumidores.

O governo, que é de quem se espera reação para reverter o quadro recessivo, cruza os braços. Não existe programa estruturado de investimento em infraestrutura nem políticas para dar liquidez à economia, a não ser o saque do FGTS que não sairá dos bancos (será usado majoritariamente para quitar dívidas). Além disso temos o complicador político de um presidente que, se empurrar, cai.

Se a economia parar de encolher, como prevê a The Economist, será pela desaceleração inerente à dinâmica do processo recessivo. Chega-se a um ponto em que se para de cair. Mas, voltar a crescer, aí é que são elas.

Com a atual política econômica, o mais provável é que fiquemos patinando no fundo do poço, com taxas de crescimento pífias por longo período. Mas, como a The Economist virou ativista política sobre os países emergentes, vá se saber quais interesses estão por trás dessa propaganda otimista para o Brasil.

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