Bom dia, doutor!

José Roberto Lima / 30/05/2018 - 06h00

 

 

           José Roberto Lima*

            Desde que foi fundada em Belo Horizonte, nos idos de 1986, a Delegacia de Crimes Contra a Mulher passou a receber vítimas que normalmente não procuravam a polícia. Antes, as mulheres não recorriam às autoridades, pois não havia um ambiente adequado para atendê-las.

            Com a criação daquela unidade especializada, mulheres de todas as classes sociais passaram a nos procurar para relatar seus infortúnios e pedir providências. Quanto mais alta a posição social, maior era a probabilidade de os acusados contratarem os serviços de um famoso advogado, que também fez carreira política. Mas não me perguntem o nome dele.

            A cena era típica: ele chegava e não cumprimentava ninguém. Em seguida, tomava assento na sala de espera. Quando seu cliente era chamado, era ele quem se levantava e dizia em tom arrogante: “Eu sou o advogado dele”.

            Ora, se ele tivesse autoestima, compreenderia a desnecessidade de se apresentar como advogado. Afinal, era um profissional muito conhecido no meio jurídico e na política. Mas parece que assim agia para justificar os altos honorários.

            Certa vez, um dos seus clientes, de altíssima posição social, foi chamado na sala de espera. E a cena se repetiu, com o distinto advogado se levantando em vez do cliente:

            - Eu sou o advogado dele.

            - Bom dia, doutor.

            Após alguns segundos de silêncio, que pareceram uma eternidade, repeti:

            - Bom dia, doutor.

            Minha saudação somente foi retribuída nesta segunda vez. E prossegui:

            - Hoje é um dia importante na minha carreira. Muitos colegas aguardam durante anos a honra de atuar num caso em que o Senhor é advogado de uma das partes. E hoje eu terei esse privilégio. Muito obrigado por me propiciar esta honra.

E concluí, após mais uma pausa de silêncio:

- Agora, vou dialogar com o seu cliente.

            Dirigi a palavra ao cliente e ordenei que me acompanhasse até minha sala de trabalho. O advogado, visivelmente encabulado, não bradou a frase que costumava dizer nestas ocasiões: “Eu quero acompanhar o interrogatório!!!!!”. Em vez disso, perguntou humildemente:

            - Eu posso acompanhar o interrogatório?

            - Claro, Doutor! O Senhor é sempre bem vindo à nossa Delegacia.

            Depois desse episódio, ele nunca mais criou caso com nenhum policial. E uma lição importante: ele até aumentou sua clientela. Pois educação e autoestima nos levam às trilhas do sucesso.

 

*Advogado, professor da Faculdade Promove, mestre em Educação, delegado federal aposentado e autor de “Como Passei em 15 Concursos”.

 

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