Reinvenção da palhaçaria

Luciano Luppi / 28/08/2015 - 07h51
Eles já foram chamados de bobos da corte, saltimbancos, histriões, jograis, fanfarrões, arlequins, bufões, gaiatos, parlapatões e por aí vai. Já fizeram reis e poderosos perderem a majestade, já fizeram crianças deprimidas sorrirem, desfizeram encantamentos e magias, moribundos gargalharem no leito da morte e mil outras incursões na graça e no riso, que parece que o papel do palhaço já está escrito na história da humanidade de forma intensa e definitiva.
 
Intensa? Com certeza, absoluta certeza! Basta reler nos anais do tempo as marcas que esses missionários da alegria deixaram. Definitiva? Creio que ainda não, pois a arte da palhaçaria está em constante mudança e reinvenção. Como exemplo, a palavra “clown” raramente era usada, no Brasil, há uns trinta anos atrás. Hoje já temos “clows” para dar e vender, cada um com sua técnica, sua história, sua filosofia e seus seguidores.
 
O Novo Circo, capitaneado pelo Cirque du Soleil, trouxe uma nova roupagem e um novo contexto para esta velha e deliciosa figura que nasceu junto com a dor e a tristeza da tragédia e se especializou em trazer deleite, distração e encantamento. Basta abrir o jornal ou navegar nas redes sociais para encontrar uma quantidade enorme de cursos e oficinas propondo uma experiência diferenciada desta arte, desde o resgate do velho e ingênuo palhaço dos circos mambembes, que povoavam o interior do país há muitas décadas atrás até o “clown” cult e underground, que traz um humor sarcástico e dilacerante e que frequenta os becos do mundo e as redes sociais.
 
Hoje temos os “Doutores da Alegria” que invadem hospitais para ajudar as pessoas na sua recuperação, atitude que até há pouco tempo era considerada uma heresia. Hoje temos uma infinidade de linguagens e de escolas e de propostas de ocupação de espaços nunca antes utilizados por estes artistas. Os palhaços estão se apropriando de locais pouco afeitos à graça e a descontração.
 
Até as mulheres, que, normalmente não se aventuravam nesta seara, já estão assumindo os seus lugares na história. É o caso da trupe “Calcinha de Palhaça”, de Belo Horizonte. Afinal, não podemos viver sem o Mundo do Nariz Vermelho, o mundo da palhaçaria, pois sempre necessitamos de personagens que nos façam sentir que também somos ingênuos, desastrados, maldosos, exagerados, ridículos, falsos, estúpidos e muitas outras coisas que tentamos esconder dos outros e de nós mesmos. Como tudo se inventa e se reinventa, o ofício desses artesãos da graça não poderia, também, ficar de fora. Que venham os novos palhaços, ou como se queira chamá-los, e que continuem provocando o riso e novas formas de achar graça na vida, que é feita de contradições e incoerências, alegrias e tristezas.
 
“Que venham os novos palhaços, ou como se queira chamá-los, e que continuem provocando o riso”
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