A hora da verdade?

Luciano Prado / 30/10/2017 - 06h00

Novamente aproxima-se o fim de ano, e começa a época das principais competições de natação da temporada ou do ano nas categorias de base dos esportes aquáticos. É a hora em que a molecada mostra na água o resultado de tudo o que foi feito durante todas as semanas de treinamento do longo período. Nesse período, treinadores prescrevem programas, crianças e adolescentes nadam, e pais participam, ajudam, colaboram.

Mas, e agora? Chegou a hora da colheita, da verdade? Nadadores ansiosos buscam resultados, treinadores esperam, e pais torcem e rezam.

O ponto em que quero chegar é: quais são as expectativas reais colocadas sobre esses meninos e meninas, moças e rapazes? Nessas três pontas do triângulo que dá sustentação ao esporte competitivo de base, as expectativas estão alinhadas umas com as outras? E que expectativas deveriam existir?

Expectativas inadequadas no esporte competitivo de base levam a problemas sérios. O menor deles é a interrupção precoce de uma carreira esportiva, muitas vezes bastante promissora. Isso é cientificamente comprovado. Crianças e adolescentes muitas vezes não conseguem lidar com a pressão por resultados positivos em competições. E essa pressão não é intrínseca, não vem de dentro, não é inerente ao mundo da criança, embora elas possam ser muito competitivas. Mas uma coisa é querer e gostar de competir. Outra, bem diferente, é ter que ganhar.

O ter que ganhar é dado pela sociedade, e se expressa de forma muito perversa no comportamento de muitos treinadores e muitos pais. Por sorte, não são todos. Mas são muitos, preocupantemente muitos.

Nessas condições, a primeira reação dos jovens é assimilar esses valores. E tentar buscá-los. Muitas vezes, até, o sucesso está associado à própria aceitação da criança e do adolescente em seu contexto familiar e social, e isso afeta diretamente algo fundamental na construção da personalidade em fase de desenvolvimento psicossocial tão sensível: a autoestima. Algo como: se ganho, tenho valor, sou aceito, reconhecido e respeitado. Se perco, fracassei, valho menos, me esforcei pouco, mereço menos, portanto.

Isso é veneno para a formação do ser humano, e é preciso que isso seja dito de forma clara, direta e sem medo. Nada contra a competição. Mas precisamos rever, urgentemente, os valores atribuídos à vitória e à derrota. Aliás, precisamos rever o próprio significado de derrota e de vitória. E, se estivermos falando da formação de atletas, então, estamos, grosseiramente, jogando talentos no lixo. Porque o suposto “fracasso” de hoje, incontáveis vezes, é o sucesso de amanhã. Mas isso é o que menos importa.

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