A Insensibilidade do Grotesco

Luciano Prado / 19/09/2016 - 16h33

Há alguns dias, um jornalista estrangeiro postou em uma rede social um comentário em que externa seu desconforto com o “espetáculo grotesco” dos atletas competindo nos Jogos Paralímpicos, no Rio.

Completa seu comentário observando que não são necessários os feitos de um atleta paraolímpico para que exemplos de superação sejam dados, e se pergunta: “será que sou só eu?”

Bem, no esporte paraolímpico, não se trata apenas disso, superação. O treinamento é árduo, a competição, duríssima, mas é também beleza, arte. Ou será que a beleza somente existe no movimento de não portadores de necessidades especiais?

Mas já que falamos de superação, o que se vê e se chamou de “espetáculo grotesco”, é apenas a competição, o ápice de toda uma trajetória.

Você já viu algum treinamento? Você sabe como funciona? A propósito, não se esqueça, ele é diário, e em determinadas épocas da temporada (quase sempre, na verdade), várias vezes ao dia. Vem comigo.

Um movimento muito comum entre praticantes de atividades em academias é o “supino”, levantamento de uma barra com pesos, realizado num banco.

Apesar de ser algo bem conhecido, trata-se de movimento extremamente complexo, que requer a estabilização de várias partes do corpo, recrutando-se músculos em grande sintonia.

Agora pense em levantar uma barra livre com pesos de 200 quilos ou mais, nessa posição, com capacidade de estabilização limitada devido a lesões medulares, amputações de membros inferiores ou más-formações congênitas?

E quanto a nadar sem poder utilizar as penas para a estabilização do corpo? Não se trata, apenas, de braços curtos ou amputados que não fazem a tração desejada.

Você sabia que há atletas que não suam, devido a lesões medulares? E se não suam, precisam de ajustes cardiovasculares muito mais impactantes que os “nossos”, para dissipar calor. A demanda circulatória é maior, e o risco de hipertermia também.

Há atletas que não têm sensibilidade em diferentes partes do corpo. Não sentem, portanto, queimaduras de sol, por exemplo. Mas lá, em seus corpos fortes, fortíssimos, onde a dor vem, inclemente, o trabalho de fisioterapeutas é minucioso e árduo, preciso. E não é qualquer um que se habilita a realizar a tarefa.

O esporte paraolímpico precisa de ciência e tecnologia: a biomecânica dos gestos esportivos é especial, atletas possuem características psicológicas muito singulares, as diferenças fisiológicas são extremamente interessantes, e pouco conhecidas.

O que dizer do desenvolvimento de materiais? Afinal, cadeiras de roda, bicicletas, próteses que são verdadeiras lâminas, todo esse aparato nos remete a filmes de ficção científica.

Mas é realidade. É árduo trabalho de pesquisa científica. Conhecimento este que irá beneficiar também os “gáudios”, que pensam que o esporte paraolímpico existe apenas para aplacar nossa necessidade de sermos politicamente corretos.

Então, como observamos, não se trata apenas de superação. Esta, entretanto é uma das facetas mais impressionantes do esporte paralímpico, desde que se tenha a sensibilidade para percebê-la.

Mas, de forma ainda mais significativa, o esporte paraolímpico é demonstração e exemplo: de que as ruas, as escadas, as calçadas, os meios de transporte, toda a vida nossa, cotidiana, precisa acolher essas pessoas.

Porque atletas são poucos. Todavia, existe uma multidão de portadores de necessidades especiais que competem, minuto a minuto, pela medalha de ouro que é, simplesmente, conseguir viver com dignidade.

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