Como treinar, quanto treinar (5)

Luciano Prado / 21/01/2017 - 14h02

Discutimos, nas ultimas colunas, a importância do treinamento da força muscular e da capacidade aeróbica (resistência) com crianças e adolescentes, abordando as melhores estratégias para tal, considerando não apenas a capacidade de adaptação ao exercício crônico de pessoas em fase de crescimento e maturação biológica, mas também os riscos e benefícios potenciais envolvidos nas atividades.

Mas nossos “baixinhos” são especialmente sensíveis ao estímulo de uma qualidade física: a coordenação motora. De forma bastante simplificada, podemos dizer que essa é a capacidade de compreender nosso corpo e as possibilidades de interação deste com o ambiente à nossa volta, sentindo, percebendo onde estamos e comandando nossas ações motoras de forma coordenada e eficaz, para que possamos conseguir o movimento que desejamos. Existe uma coordenação motora que envolve movimentos mais gerais, e uma coordenação para movimentos mais finos e precisos. E o resultado final depende também de como coordenamos os órgãos dos sentidos com nossos membros (por exemplo, coordenação óculo-manual, coordenação espaço-sensorial), como percebemos nosso ambiente (é o caso da visão periférica, ainda como exemplo), e como reagimos a estímulos, como a velocidade de reação.

Pois bem, o desenvolvimento dessas habilidades depende da maturação do sistema nervoso ao longo da infância, e no início da puberdade. Principalmente nosso cérebro, que abriga nosso córtex motor (estrutura responsável pela elaboração dos movimentos), apresenta uma enorme plasticidade nessa fase da vida. Ou seja: o órgão é submetido a um processo intenso de maturação e modelação, e com isso é extremamente influenciável por estímulos de qualquer natureza que possam ser dados a ele; inclusive os estímulos motores e sensoriais.

O conhecimento disso, cientificamente comprovado, é uma verdadeira dádiva. Sabemos hoje que crianças precisam de movimento, mas com uma característica principal: variado! Ou seja, quanto mais um menino ou uma menina forem estimulados a brincar, jogar, lutar, correr, saltar, tanto melhor. Em chão duro, de grama, de areia, de terra. Com bolas pequenas, médias, grandes, duras e macias. Com as mãos, pés, cabeça. Em pé, deitados, de costas, de frente, de lado, de cabeça para baixo. Sozinhos ou com um colega, grande ou pequeno, menino ou menina. Ou em grupos. Saltar para cima e para baixo. 

Mergulhar, nadar, se movimentar livremente dentro da água. Detalhe: quanto mais cedo esses estímulos forem fornecidos, melhor. Mas com alguns cuidados muito importantes: 1.: elas competem espontaneamente, mas não se deve cobrar vitória nem desempenho (aliás, o nível do desempenho motor depende muito da idade e da maturação do sistema nervoso. Com frequência, as expectativas são altas demais); 2.: estimular desde pequeno não significa de forma alguma especializar-se em um determinado tipo de atividade, isso deveria ser evitado; 3.: finalmente, o que para mim é o mais importante: toda atividade deve ser realizada com prazer e muita diversão.

Conseguir propiciar tais experiências de movimento a nossos jovens é certeza de sucesso, pois, como dito, eles são altamente responsivos a isso. E é um presente para toda a vida!

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