Hora de semear

Luciano Prado / 12/11/2016 - 06h00

No mundo do esporte, quando vemos um atleta no pódio, quando vemos uma prova de final, um jogo decisivo, estupefatos com o desempenho impressionante dos atletas, costumamos nos perguntar: de onde vem essa capacidade? De onde vem esse talento? Bem, a resposta não é simples.

Para começar, muito se discute de onde vem o talento. Seria ele inato, herdado de nossos pais e avós, e estaria incrustado em nossos genes? Seria ele estimulável, trabalhável, e, portanto, sujeito ao desenvolvimento voluntário? Enfim, o que é o talento?

O talento pode se manifestar em características físicas, antropométricas, como altura, altura sentado, envergadura, comprimento de pernas, área da palma da mão, tipos de fibra muscular, massa muscular. Em características motoras, como coordenação motora geral, noção de ritmo, coordenação óculo-manual, coordenação espaço-temporal, força muscular, flexibilidade, resistência. Ou características perceptivas, como acuidade visual, velocidade de processamento de informações; e psicológicas e sociais, como liderança, controle de emoções, atenção e vigilância. Enfim, é um universo lindo e misterioso.

Uma coisa é certa, entretanto. O talento bruto, não selecionado, morre como talento. Ele precisa ser detectado, identificado. E depois, trabalhado, estimulado, desenvolvido. Este trabalho não é simples, ele necessita ser pesquisado, compreendido, e depois sistematizado e implementado, de preferência de forma regular, constante. É o que tentamos fazer no Centro de Treinamento Esportivo da UFMG, a exemplo da “peneirada” para o atletismo, a ser realizada no próximo fim-de-semana, ou a que promovemos há alguns dias, para o tae kwon-do. O que estamos almejando é dar chance ao maior número possível de crianças e adolescentes que podemos acolher, que apresentarem já sinais de predisposição para o desenvolvimento de competências que os levem ao alto rendimento esportivo. Uma vez mais, aponto que este é um sistema complexo, que envolve muitas variáveis ainda pouco compreendidas e que tentamos sistematizar. Independentemente disso, desse nosso processo localizado, necessitamos urgentemente em nosso País de um sistema educacional que dê oportunidade de prática, experimentação e vivência motora de todos os tipos a todas as crianças e jovens. Precisamos espalhar muitas sementes, para que a maior quantidade possível possa germinar. Quando, em nosso Centro, estamos procurando detectar talentos, não estamos colhendo. Estamos plantando.

Entretanto, é fato que ao nos depararmos com um resultado final, o desempenho do expert, a beleza da execução motora, as incríveis façanhas físicas e mentais que nos surpreendem no esporte de alto rendimento, estamos, na verdade, diante de um fantástico trabalho de identificação dos talentos, e de estímulo a eles. Mas, também, de anos de árduo trabalho de aprimoramento, através do treinamento, de competências físicas, psicológicas, sociais, afetivas, e mentais que fazem daquele indivíduo um excepcional atleta. Mas, reitero, e reitero com a maior ênfase possível: dentre os muitos que nesse universo ingressam, poucos serão campeões ou finalistas. Mas muitos serão os seres humanos que, senão mulheres e homens com ferramentas incrementadas para enfrentar a grande e bela maratona da vida, tiveram ricos anos de muita diversão, que, espera-se, serão levados para o resto de seu tempo. De preferência, anos plenamente ativos.

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