Nadando em Águas Abertas

Luciano Prado / 24/07/2017 - 10h38

As provas de natação em piscina do Campeonato Mundial de Esportes Aquáticos 2017, em Budapeste (Hungria), tiveram início ontem, domingo. Desde a semana passada, entretanto, já aconteciam provas de natação em águas abertas, paralelamente às disputas de nado sincronizado, polo aquático e saltos ornamentais.

O Brasil obteve grande sucesso nas provas em águas abertas, principalmente na figura de Ana Marcela Cunha, com o ouro na prova de 25 quilômetros e dois bronzes, nas provas de 5 e 10 quilômetros. 

Gostaria de chamar atenção para esse grande feito. Alguém aqui não ficaria satisfeito em percorrer 25 quilômetros de bicicleta? Imagine nadando. Agora, imagine nadando em águas abertas, ou seja, com correnteza, muita marola, sem raias ou marcações de fundo de piscina para a orientação. Isso mesmo, a natação de águas abertas é uma modalidade fascinante, que empresta colorido especial às clássicas provas em piscina. E o Brasil tem ido bastante bem nesse quesito.

A natação em águas abertas demanda, em termos biológicos, uma enorme adaptação em termos de capacidade aeróbica, a famosa “resistência”. Isso também é exigido nas provas de piscina em todas as distâncias (exceto, talvez, as provas de 50 metros), embora especialmente nas de 800 e 1.500 metros. Há uma diferença essencial, entretanto: enquanto na piscina demanda-se mais aquele atributo comumente denominado potência aeróbica, nas águas abertas, o componente resistência ganha especial relevância. Na potência, determinante é a capacidade de o corpo fornecer a maior quantidade possível de oxigênio para os músculos em exercício, para que estes transformem, aerobicamente, a energia química armazenada na musculatura em energia mecânica, mas no maior fluxo possível, o que permite que a maior intensidade de exercício possa ser mantida.

Nas águas abertas, embora o objetivo seja também a manutenção da maior intensidade de nado (é o que, afinal de contas, faz com que o nadador alcance mais rápido a linha de chegada), o componente resistência ganha muito espaço. Isso quer dizer que o tamanho das reservas musculares de energia química, armazenadas na forma de carboidratos (açúcares) e gordura, assume, agora, importância fundamental, além, ou talvez mais até do que sua velocidade de utilização. Para tal, o treinamento com grandes volumes (quantidade de quilômetros nadados semanalmente) passa a ser imperativo. Além disso, o exercício com pesos (treinamento de força fora da água) garante a resistência muscular necessária para atividade tão repetitiva.

Mais do que essa diferença básica em termos fisiológicos (biológicos), no entanto, a natação no ambiente aberto demanda estratégia de prova, tática, conhecimento dos adversários e suas estratégias, senso de orientação, conhecimento e sensibilidade para a água em seu ambiente natural e muita esperteza. Isso faz com que as características do treinamento fiquem bastante diversificadas, para que se atenda à demanda da competição.
Um desafio, mas também um prazer a mais para quem treina. E para quem assiste.

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