O corpo tem seu limite

Luciano Prado / 21/08/2017 - 06h00

Usain Bolt não conseguiu terminar sua prova de revezamento nos 4 x 100 metros rasos no último campeonato mundial de atletismo. A equipe da Jamaica, por quem Bolt corria, além de ficar sem a desejada medalha, não conseguiu sequer completar a prova, aquela que deveria coroar a despedida de uma carreira histórica na história do esporte mundial, todas as modalidades incluídas. Já anteriormente, no mesmo evento, Bolt já dava sinais de que alguma coisa poderia não estar acontecendo de forma ótima, ao não conseguir a vitória na prova de 100 metros rasos, onde reinou absoluto por muitos anos. A despedida do atleta teve um toque de melancolia, diante de tudo o que representou, embora não se possa nem minimamente ofuscar o brilho de uma carreira tão especial e tão marcante através de um único resultado abaixo do desejado ou do esperado. Mas a queda de desempenho e principalmente a lesão chamaram a atenção.

Um amigo, ex-atleta, foi jogar uma pelada de futsal com seus colegas e, trotando pela quadra numa saída de bola, sentiu algo como uma pedrada no tendão de Aquiles, como se alguém, do nada, tivesse cometido uma falta desleal, por trás, golpeando-o no calcanhar. “Do nada” foi o rompimento total do tendão de Aquiles, que ele percebeu ao cair no chão e sentir sua musculatura encurtada, perto do joelho. Do nada?

Uma das triatletas com quem trabalhei trota numa corrida recuperativa sobre o campo gramado e, de repente, grita de dor, colocando as mãos na região de trás da coxa. Um rompimento muscular parcial que vai exigir algumas semanas de fisioterapia para a regeneração, que aconteceu numa atividade bem leve, mas... do nada? Naqueles dias, sua frequência cardíaca, que ao correr numa velocidade de aproximadamente 10 km/h normalmente ficava numa faixa de 130 batimentos, começava a apresentar valores perto dos 150 batimentos, para a mesma velocidade e condições de corrida. Importante dizer, ela vinha apresentando distúrbios menstruais e até amenorreia completa pouco antes do ocorrido.

Todos esses fatos, embora em condições completamente diferentes, têm algo em comum: o corpo tem seu limite, e esse limite foi alcançado. As manifestações disso são as mais variadas, e o limite também pode ser atingido de diferentes maneiras. Mas, uma hora, essa fronteira do tolerável pode ser atingida.

O somatório de cargas mecânicas, de exigências metabólicas, de adaptações estruturais de anos e anos de treinamento no limite faz com que, eventualmente, mesmo em condições bem monitoradas, o corpo de repente não aguente mais. E quebra, rompe, a lesão vem. Sorte de quem, antes de se lesionar, apresenta “apenas” quedas de rendimento e uns poucos sintomas perceptíveis, um pouco incômodos, mas nada de grave. Entretanto, a tentativa de continuar a se exercitar, a treinar, apesar de sinais claros de fadiga crônica, pode ser o melhor caminho para problemas de saúde mais complicados.

E isso pode ocorrer ao longo de anos, mas também rapidamente, em poucos dias e semanas. E pode atingir atletas dentre os melhores de todos os tempos ou você, que procura, por prazer, um rendimento cada vez maior e, para isso, talvez exagere um pouco. Na próxima coluna abordarei os sinais que o corpo dá. Para que exercício físico possa, sim, objetivar rendimento, mas com saúde e diversão.

 

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