O público e o privado

Luciano Prado / 15/05/2017 - 06h00

Caminho à beira da pista de atletismo do Centro de Treinamento Esportivo da UFMG com um colega de trabalho, pesquisador na área de Ciências do Esporte, mas não diretamente envolvido com o cotidiano de atletas, e observamos um enorme grupo de atletas de atletismo, espalhado em grupos menores por campo e pista, concentrados em diferentes atividades de treinamento. De repente, ele para de andar, olha para as moças e rapazes, e comenta de forma espontânea, mas categórica: gente, como isso é bonito!

A frase, aparentemente, não tem nada de mais. Mas vindo de quem veio, um grande pesquisador na área, e da forma tão espontânea que foi, tão direta e simples, me chamou a atenção. E pensei: é mesmo!

Eram muitos os atletas, muitos os treinadores e estagiários. A tarde, cheia de luz, se enchia do colorido dos uniformes. Embora o grupo fosse grande, havia um silêncio de circunspecção, de concentração, reflexo da energia empenhada nas variadas tarefas. Realmente, era lindo aquilo. E nós, acostumados àquelas cenas, não percebemos mais a força da situação. E não percebemos mais todo o esforço envolvido para que aquilo aconteça.

Daquele trabalho sairão profissionais capacitados a trabalhar com a atividade física e o esporte, sairão atletas e cidadãos. É muito bom e gratificante ver, de forma inesperada, numa situação talvez um pouco insólita, o retrato do que tem sido feito. Era como se estivéssemos diante de uma tela, da qual emana uma grande paz.

Todavia, alguém planejou aquilo e trabalhou arduamente para que aquela cena se concretizasse. E além da inteligência e planejamento, recursos financeiros foram fundamentais. Ou seja, foram necessários política, planejamento e recursos. Da política e planejamento já falei nessa coluna, mas nunca toquei no gargalo do financiamento para as políticas.

É recorrente no mundo contemporâneo o discurso de que o Estado precisa ser menor e mais eficiente. Impossível discordar, todos teríamos apenas a lucrar se assim fosse. E de que as instituições públicas (como a nossa) precisam se desvincular da ideia de que, sendo públicas, não possam contribuir na geração de recursos. Concordo plenamente. Afinal, por que não? E de que precisamos nos desligar do cordão umbilical do Estado, que nos nutre há tempos, e que não podemos esperar que isso se perpetue ad infinitum. Obviamente, ninguém espera (ou deveria esperar) viver dentro de um útero onde se viva confortavelmente para sempre, e onde não se precise lutar por resultados.

Creio que o desenvolvimento de atletas possa contribuir para a formação de cidadãos mais plenos, numa sociedade mais justa, desde que o trabalho seja eticamente correto e tecnicamente bem conduzido. Entretanto, algumas lutas precisam ser públicas, em nome de nossa sociedade, mais pacífica, mais desenvolvida, mais inclusiva. Ou seja, a geração de recursos a partir da interação com instituições privadas é fundamental, mas o Estado (e não governos!) precisa saber por onde caminha e aonde quer chegar. E de bandeira em punho, assumir certas batalhas.

Aquela tela colorida, com a luz da tarde e a paz que dela emana, é obra de arte. Demanda talento, esforço, planejamento, e não é barata! Mas estou certo de que vale cada centavo!

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