Química, de novo!

Luciano Prado / 29/05/2017 - 06h00

Uma vez mais um atleta brasileiro é flagrado em exame antidoping com contraprova positiva. Uma vez mais, trata-se de atleta não apenas olímpico, de renome, mas de um ídolo do púbico, um símbolo para a sociedade, um bom moço que encanta pelo seu desempenho e pelo que representa. Um herói brasileiro. E agora isso.

Uma vez mais um atleta brasileiro é flagrado pelo uso de furosemida, um diurético de uso muito comum na medicina, por aumentar a eliminação de sódio e água do corpo e, assim, atuar na redução de edemas oriundos de condições patológicas hepáticas, cardíacas ou renais. Assim, a furosemida atua, por exemplo, no controle da hipertensão arterial. Fármaco comum para uma doença muito comum.

O uso de diuréticos já foi amplo em esportes de combate, onde as categorias são determinadas pela massa corporal do atleta. Ou seja, estar mais leve no momento da pesagem para competir em categoria com lutadores menores pode ser uma vantagem. Assim, perder água era vantajoso no sentido de estar mais leve. Há aqui algumas questões muito interessantes que contraindicam de forma contundente a prática, mas isso é tema para outra coluna.

O argumento do atleta foi justamente este. Em sua modalidade, o voleibol, que vantagem terá o uso de um diurético? Que vantagem existe em estar mais leve ou ter menos água no corpo. Provavelmente, apenas desvantagens.

A questão é que o uso da furosemida, por causar forte eliminação de água pelo corpo, passou a ser utilizada para mascarar o uso de outras substâncias proibidas com potencial ergogênico (aumento do rendimento esportivo), seja ele comprovado ou não. E, também por isso, a furosemida integra a lista de substâncias proibidas da WADA (a agência mundial que faz o controle antidopagem no esporte). Com a furosemida pode-se, por exemplo, mascarar o uso de esteroides anabolizantes, com potencial de aumentar a massa muscular, logo a força máxima, a agressividade e a produção de hemácias que transportam o oxigênio.

Estranhamente, muitos desses nossos heróis foram pegos justamente com furosemida. Coincidência? É comum atriuir a detecção de furosemida no corpo dos atletas à contaminação de suplementos nutricionais em farmácias de manipulação. Mas estariam estes suplementos contaminados sempre pela mesma substância? Hum...

O que de fato me entristece é que nenhum desses atletas precisaria de ajuda química para ser o que são em termos de rendimento esportivo. Furosemida de jeito nenhum. Nem nada mais. São atletas excepcionais, que obtêm seus rendimentos pelo talento que possuem, e pelo esforço que fazem. No caso desse nosso jogador, ainda mais triste: quanto maior a relevância da técnica e tática na modalidade, menos os atributos físicos são determinantes. E dopagem química só muda o físico, não tem qualquer influência sobre técnica ou talento.

Pelos atletas, eu lamento, e torço para que possam dar a volta por cima e eliminar essa mácula dura de roer de seus currículos, de suas vidas. São bons moços, embora tenham errado. Mas alguém lhes passou o conto da carochinha de que se tomassem isso ou aquilo, voariam, arrebentariam. Arrebentaram mesmo, a si próprios. E os contadores de história? São vilões, embusteiros, precisam ser encontrados e banidos do esporte. Aos atletas: sejam mais espertos, escolham melhor sua equipe de conselheiros!

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