Sistema

Luciano Prado / 30/04/2017 - 19h49

Sentado em minha cadeira no Centro de Treinamento, escuto, nesse frio início de noite, a gritaria e a algazarra de crianças e adolescentes passando pelo saguão de entrada, chegando para o treino, ou saindo de sua prática diária. A gritaria é expressão máxima e deliciosa da alegre energia que emana desse pessoal em crescimento, desenvolvendo-se com a ajuda das atividades que aqui realizam.

Procuramos, dentro de nossa estrutura, propiciar a esses indivíduos as melhores condições possíveis de treinamento em sua rotina. Isso vai de bons vestiários, pista, campo, piscina e sala de treinamento de força a bons laboratórios e excelentes profissionais, tanto treinadores, quanto profissionais das áreas atuantes no treinamento esportivo: a nutrição, a psicologia, a medicina, com a fisiologia do exercício, e a fisioterapia, com a biomecânica, basicamente. Não é tarefa fácil, e coordenar tudo isso, alinhavar a interação de todo esse corpo de profissionais, de sua área específica de ação e seu peculiar modo de operar, até que se forme um corpo coeso de intervenção em prol do desenvolvimento pessoal, humano e esportivo dos atletas, é obra pouco vista em nosso país e no mundo. Algo do que nos orgulhamos. Eu diria, sem falsa modéstia, que somos um polo de excelência no esporte e em sua ciência, com muito espaço ainda para melhorar.

Posto isso, voltemos aos atletas. Desenvolvendo-se, aprimorando-se, eles precisam dar vazão a suas novas competências. Precisam interagir com colegas, atletas de sua idade, parceiros de modalidade e de jornada, e precisam competir. Isso implica em recursos financeiros e bom planejamento. Transporte, acomodação, alimentação não são coisas baratas. Além de viajar, os eventos, em si, precisam ser bem estruturados, para que a interação e a competição saudável aconteçam, e planejados com antecedência, para que possam ser incluídos na programação de pais e responsáveis, escolas, clubes e centros de treinamento. E mais: é necessário que se atenda a uma progressão estruturada quanto à qualidade e ao tamanho dos eventos, que devem andar de mãos dadas com a periodização anual e plurianual do treinamento das equipes. Do local, para o regional, nacional e internacional. Do fácil para o disputado.

Vejamos então: recursos e planejamento. Boa vontade, financiamento, interesse e visão. Palavras jogadas à revelia para que se tenha a dimensão do desafio (quase escrevi problema, mas prefiro desafio): o esporte precisa ser pensado. E pensado como um sistema, com início, meio e fim. Precisamos saber o que temos, onde estamos e para onde queremos ir. E precisamos parar de puxar a corda cada um para si, e por si, e isso nos diferentes níveis da prática esportiva: o municipal ou regional, o estadual e o nacional. Nas escolas, clubes e centros de treinamento. Precisamos olhar mais para o sistema, e menos para o próprio umbigo. Caso contrário, a linda algazarra morre como algazarra. E tem pernas curtas.

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