Sobre o individual e o importante

Luciano Prado / 08/03/2017 - 14h48

Historicamente, as modalidades esportivas têm sido divididas entre modalidades ou esportes individuais e modalidades ou esportes coletivos ou em equipe. Em minha carreira tive a oportunidade de ser treinador de nadadores em diferentes níveis, desde olímpicos a iniciantes (um esporte “individual”), trabalhei com atletas de futebol de campo de Primeira Divisão no Brasil por quase dez anos (um esporte “coletivo”), fiz ciência com atletas e não atletas, e dirijo e administro instalações esportivas importantes. Sou um privilegiado, na verdade, por ter a chance de ver o esporte por diferentes ângulos e perspectivas. E ter a chance de perceber que as classificações não espelham o que realmente acontece dentro do esporte.


No futebol, basquete, handebol, bolas são passadas e jogadas arquitetadas “em conjunto”. Obviamente, um nadador nada sozinho, ninguém o empurra, bate as pernas ou gira os braços por ele. Da mesma maneira, as ações musculares de um saltador, lutador ou corredor são geradas dentro de um único cérebro. Entretanto, aquilo que se chama no esporte de “o grupo”, “a equipe”, o “ambiente de treinamento” constitui um aspecto fundamental da vida de um atleta, e de um ser humano atleta. Influi, melhor, determina seu rendimento esportivo e sua percepção de bem-estar, de felicidade, sua autoestima, molda a noção das pessoas de seu lugar na sociedade – esta, inclusive, normalmente é uma expressão mais “macro” daquele mundo esportivo. Psicólogos do esporte são unânimes em apontar a importância da equipe para atletas de modalidades individuais.


Muitas vezes o principal jogador de um time não é necessariamente o que mais marca gols ou faz cestas ou pontos. No futebol de campo, os titulares não são necessariamente os 11 que começam o jogo, e esse é um conceito cada vez mais estabelecido no futebol de campo de alto rendimento. Os atletas sentados no banco podem ser tão importante quanto aqueles 11, sem falar nos jogadores do elenco que não foram relacionados.


Da mesma forma, numa equipe, os nadadores, corredores, saltadores, arremessadores, ciclistas, remadores e lutadores importantes não são apenas aqueles que levam as medalhas em ventos nacionais e internacionais. Assim como os considerados talentos não deveriam ser apenas aqueles que um dia chegarão lá. Tão importantes quanto são aqueles que compõem a massa, aqueles que dão liga, aqueles que unem o grupo, que divertem, que protegem e que, muitas vezes sem medalha alguma, lideram.


Sendo assim, devemos sempre ter em mente: ninguém nada ou corre sozinho. Ninguém é mais importante. Não desperdicemos talentos. Nem oportunidades.


Sendo assim, ver um campeão mundial correr ou nadar é tão mágico quanto assistir sua filha tentando fazer uma bandeja. Ou levar um ipon no torneio da escola.

 

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