Um cochilo e uma pergunta

Luciano Prado / 20/03/2017 - 06h00

Tivemos  uma importante palestra na UFMG sobre a importância do sono para o ser humano e para o atleta, proferida por um de nossos colegas, Marco Túlio Mello, eminente professor e pesquisador na área. O público era constituído por atletas de sete modalidades esportivas e vários de seus treinadores. No intuito de escrever reportagem sobre o evento, uma jornalista me entrevistou, com a seguinte pergunta: por que você considera importante que atletas e treinadores estejam inteirados quanto à importância do sono no treinamento esportivo?

Muitas vezes parece óbvio que o sono seja importante para a saúde e bem-estar das pessoas, a velha história das 8 horas diárias. Mas mais importante do que isso é saber o porquê dessa importância toda. Como a coisa funciona? Como o sono é importante?

Entretanto, um aspecto me chamou muito a atenção na pergunta da jornalista. Em sua forma de indagar, ela partia do pressuposto que a sociedade, assim como atletas e técnicos, ficaria de certa forma surpresa: se eu estou falando de treinamento, ou seja, de esforço e de suor, por que falar de sono? Tudo bem, recuperar é importante, mas... sono? Para recuperar não existe banho de imersão em água gelada, massagem, sauna, hidromassagem, crioterapia a -100 graus, e toda a suplementação alimentar nas prateleiras coloridas das farmácias? E, ainda, importante não é o quanto eu me esforço?

Esse é justamente o fenômeno. O simples é esquecido, em detrimento do importante, chamativo, apelativo e com ares de ficção científica ou tecnologia avançadíssima. Afinal, dormir não é tecnologia avançada, ou é? Dormir, não, mas entender o sono, sim. Ciência de alto grau de complexidade, e com inúmeras questões ainda por ser elucidadas. Mas, mais do que tudo isso, a pergunta é interessante porque não se considera a recuperação, normalmente, apenas o esforço, o suor, a ralação, a dedicação.

A recuperação, com todas as suas rebuscadas e científicas formas, e na sua expressão mais simples, natural e absolutamente necessária, que é o dormir, é no mínimo tão importante quanto os estímulos de treinamento. Entretanto, esse fundamental aspecto do treinamento é solenemente negligenciado por treinadores, atletas, pais, jornalistas e até meios de comunicação. A adequada dosagem de cargas de treinamento, e sua distribuição ao longo das semanas, meses e temporadas só pode ser alcançada quando, entre aqueles dias, semanas, meses e temporadas de treino, o adequado repouso é provido. Apenas atletas bem recuperados treinam bem. E desempenham bem! Ter consciência disso é fundamental. Mas saber o “como”, entender os mecanismos pelos quais o sono atua em nosso organismo e em nossa mente, é fator determinante para que atletas e técnicos desenvolvam, conscientemente e de forma contínua, estratégias adequadas de recuperação. Os efeitos não serão sentidos apenas no número de medalhas ou nos recordes alcançados.

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