Ventos amenos em PyeongChang

Luciano Prado / 12/02/2018 - 06h23

PyeongChang é um condado no norte da Coreia do Sul, com quase 50 mil habitantes. Um lugar pequeno encrustado em montanhas tornou-se, nesses dias, uma espécie de capital do mundo. Ali, em meio a muita neve e temperaturas congelantes, estão sendo realizados os Jogos da XXIII Olimpíada de Inverno. E uma vez mais o esporte mostra que é muito mais que apenas “esporte”.

A relevância geopolítica alcançada pelos Jogos disputados nesse pequeno lugarejo é impressionante, e não pode passar despercebida mesmo aqui, um país tropical como o nosso, em que alguns flocos de neve são comemorados com estardalhaço e, naturalmente, a familiaridade e envolvimento com modalidades esportivas na neve e no gelo não são tão expressivos. Mas, como disse, é muito mais que esporte.

PyeongChang foi escolhida para sediar os Jogos de Inverno de 2018 na sua terceira tentativa. Anteriormente, já havia perdido a contenda para Vancouver (Canadá), em 2010 e Sóchi (Rússia), em 2014. E não poderia haver momento melhor, parece ter sido escolhido a dedo. O fato de PyeongChang estar localizada no norte da Coreia do Sul significa estar a poucos quilômetros de distância de uma das fronteira mais conturbadas do planeta, a divisão geográfica que a separa de seu país irmão, a Coreia do Norte. Os dois países, separados como uma decorrência teratogênica da Guerra Fria que, em seu apogeu, dividiu o indivisível, um país e um povo com uma identidade cultural e étnica muito clara, devido ao conflito entre União Soviética e Estados Unidos. E hoje, muitas décadas depois, o ranger de sabres entre um déspota norte-coreano e um presidente norte-americano sem muito receio de um crescente belicismo traz temor e muita imprevisibilidade para toda a Ásia e o restante do mundo.

Mas existe o esporte, existem os Jogos Olímpicos e a inexplicável comoção que daí surge. E, de repente, o povo sul-coreano sai às ruas brandindo bandeiras de uma Coreia unificada, a única Coreia real, que nunca deixou de existir. Uma bandeira branca, com um mapa de seu país em azul claro. O país todo, o mapa original. Não há povo separado, não existem duas nações, e as cores dessa bandeira, simbolicamente o azul claro e o branco, remetem a uma neutralidade importante, simbólica, um desapego a símbolos nacionais.

O movimento, totalmente espontâneo, continua durante eventos com participação norte-coreana, onde belas animadoras de torcida enviadas por seu “líder máximo”, trajadas com elegantes vestidos vermelhos, um símbolo anacrônico do comunismo, entoam seus hinos, todo o ginásio, sul-coreano, se une em coro e torce, apoiando os atletas ou as atletas... coreanos! É, no mínimo, de arrepiar.

Isso sem contar no time de hóquei feminino, que uniu atletas do norte e do sul numa única equipe. Perderam de lavada da Suíça em sua primeira atuação, mas quem liga para isso? E os atletas do Norte e do Sul lado a lado na cerimônia de abertura?

É um recado: senhores, vamos parar com essa baboseira e nos permitam viver em paz, com nossas famílias reunidas, nossa cultura, nossos hábitos, nosso passado comum. Um recado dado por um povo, por uma nação, mas sem aspirações “nacionalistas”. Uma mensagem propiciada pela mágica do esporte. Um evento de inverno para o qual países tropicais, como o nosso, enviam seus representantes, ainda que sem nenhuma chance de vitória. E isso é muito, mas muito importante mesmo!

 

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