Ventos de Mudança

Luciano Prado / 16/10/2017 - 06h00

Essa semana, com os desdobramentos da transformação da prisão temporária para preventiva de Carlos Arthur Nuzman, ex-presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, por tempo indeterminado, é impossível não escrever sobre o assunto. Sopra um vento diferente pelo esporte brasileiro.

A CBDA, Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos, começa a dar sinais de recuperação do verdadeiro terremoto por que passou recentemente. Dirigida por Coaracy Nunes por 29 anos, a instituição viu seu presidente ser preso, acusado de desvio de verbas em escala estratosférica. Foram presos ainda outros dirigentes, e as irregularidades incluem até o não pagamento de premiação a atletas. Diga-se de passagem, a participação de vários atletas foi fundamental para o desenvolvimento das investigações que culminou nas prisões. Obviamente não posso tecer qualquer julgamento definitivo acerca do caso, mas chama a atenção a amplitude e profundidade das investigações. Precisamos pensar: se confirmadas as irregularidades, onde poderia estar hoje a natação brasileira, o polo aquático, o nado sincronizado e os saltos ornamentais? Que recursos seus atletas olímpicos deixaram de receber? Que chances foram anuladas ou diminuídas? E o esporte de base? Os pequenos nadadores, as iniciantes saltadoras, jogadoras de polo, o que deixou de ser feito por eles?

Num ambiente de elevadíssima pressão dos meios de comunicação e da sociedade quanto ao legado material da Rio 2016, o Ministério dos Esportes, acertadamente, procura com recursos escassos manter a estrutura. Mas, principalmente, revê cuidadosamente seus projetos e destinação de recursos. Nada pode ser investido em vão, não temos dinheiro a perder, mas muito a fazer. Nota-se um descomunal esforço por transparência. E por coerência nos investimentos. Quando, através das informações divulgadas pela mídia, tem-se a impressão de que a vaca, irremediavelmente, foi para o brejo, começa a brotar uma semente de mudança.

No COB, uma mobilização inédita de atletas brasileiros sacode a instituição. Exige-se, dentre outras coisas, eleições diretas para a liderança da entidade, com a participação efetiva de representantes dos atletas na gestão do esporte olímpico nacional. Mais uma vez, quando se pensa que tudo está acabado, que o esporte nacional se esfacela, toma força um movimento oriundo da comunidade de atletas. Estes que se unem, organizam-se e pressionam para defender o seu, o nosso esporte.

O meu ponto aqui não é chamar a atenção para as mazelas, para a deterioração do sistema esportivo. Isso tem sido feito à exaustão, e foi (continua sendo) fator determinante para o fenômeno que agora quero destacar.

Em meio ao desalento, novas forças se formam. Em meio ao caos, germina a esperança. A Justiça faz seu trabalho. Pode ser que haja críticas, e não sou competente para emitir opinião sobre isso, mas há consistência, coerência e constância. Mas, num movimento ímpar, os atletas brasileiros perceberam que, juntos, são fortes, são um time, são imbatíveis. E que não, nada precisa ficar como está. O esporte brasileiro, assim como nosso País, pode se tornar aquilo que sonharmos para ele. E dependerá de como, juntos, lutarmos por ele.

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