A farda longe da turbulência

Manoel Hygino / 03/10/2017 - 06h00

Situação delicada vive a nação. Mexeu-se numa caixa de maribondos – alguns preferem – num ninho de cobras, e os bichos estranharam e se estranharam. Os membros dos três Poderes assumem posições diferentes sobre problemas que avultam em nosso meio e época, o que em princípio é natural. As divergências afloram entre seus componentes e as dificuldades no de relacionamento tresdobram.

Repercutiu uma declaração do general Antônio Hamilton Martins Mourão, quatro estrelas, durante reunião da Loja Maçônica Grande Oriente, em Brasília, na sexta-feira, 15 de setembro. O mestre de cerimônias, ou coisa que o valha, perguntou ao oficial, fardado: “A Constituição Federal de 88 admite uma intervenção constitucional com o emprego das Forças Armadas. Os poderes Executivos (sic) e os Legislativos estão podres, cheio de corruptos. Não seria o momento dessa interrupção, dessa intervenção, quando o presidente da República está sendo denunciado pela segunda vez e só escapou da primeira denúncia por ter “comprado”, entre aspas, membros da Câmara Federal? Observação: fechamento do Congresso, com convocações gerais em 90 dias, sem a participação dos parlamentares envolvidos em qualquer investigação. Gente nova”.

A incisiva, talvez imprudente, inquirição teve resposta imediata, mas com observações cuidadosas de Mourão. Resumo o que chamou a atenção: “Ou as instituições solucionam o problema político, pela ação do Judiciário, retirando da vida pública esses elementos envolvidos em todos os ilícitos ou então nós teremos que impor isso”. 

A imposição é expurgar dos cargos públicos relevantes os autores de ilicitudes amplamente divulgadas por todos os meios de comunicação e pelos quatro cantos do mundo. O que não será fácil,” pois “trará problemas”. O general evoca o passado, o período revolucionário e a ditadura, enfatizando os “sucessivos ataques que nossa Instituição (as Forças Armadas) recebeu, de forma covarde, de forma não coerente com os fatos que ocorreram no período de 64 a 85. E isso marcou a geração”, a sua.

Ressalta que companheiros até hoje dizem assim: “poxa, nós buscamos fazer o melhor e levamos pedradas de todas as formas”. Observa: “Mas, por outro lado, quando a gente olha o juramento que nós fizemos, o nosso compromisso é com a nação, é com a pátria, independente de sermos aplaudidos ou não. O que interessa é termos a consciência tranquila de que fizemos o melhor e de que buscamos de qualquer maneira atingir esse objetivo”.

Já o comandante do Exército, general Eduardo Villas Boas, diante do eco das palavras do general Mourão (que nada tem a ver com o general Olímpio, da Revolução), conceituou: “Desde 1985 não somos responsáveis por turbulência na vida nacional e assim vai prosseguir”. Além disso, “o emprego (da força do Exército) será sempre por iniciativa de um dos Poderes. A Força “defende a manutenção da democracia, a preservação da Constituição, além da proteção das instituições”.

As declarações são suficientemente claras, pelo que depreendo. As iniciativas supervenientes serão, portanto, de um dos três Poderes em hora propícia. O ministro Marco Aurélio, do STF, reconhece: “Estamos diante de uma crise institucional. É muito grave”. Os dias e noites são de expectativa, de até dorida inquietação para um povo que já pagou R$ 1,5 trilhão em impostos neste dificultoso 2017.

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