A hora em que vivemos

Manoel Hygino / 02/12/2017 - 06h00

É fim de ano, dezembro flui, as chuvas chegaram, as incertezas e desconfianças permanecem, avultam. Sente-se nas ruas, nas esquinas, no labor cotidiano, na troca doméstica de ideias, no que se ouve, se vê e se lê pelos meios de comunicação, nos semblantes.

Reconheço, com o poeta Emanuel Medeiros Vieira, que “tudo que não tem valor contábil parece repudiado, ou pelo menos sem significação, pela sociedade em que vivemos”. Assim com a amizade, o talento, o amor. E mais: nota-se um déficit de ternura no mundo, não só nas contas do governo.
Por falar nisso, observa-se uma generalizada descrença do brasileiro nos governantes, naqueles que receberam incumbência de gerir os negócios de Estado e da comunidade.

Embora sintomas positivos de retomada das atividades econômicas, verificamos em dados oficiais do IBGE, que o mercado de trabalho no Brasil perdeu 738 mil vagas com carteira assinada no período de um ano. O total de postos formais no setor privado encolheu 2,25% no trimestre encerrado em outubro, relativamente ao mesmo período do exercício anterior.

A indústria fechou 85 mil vagas no trimestre terminado em outubro. Também houve demissões em transporte, armazenagem e correio, com 48 mil ocupados a menos, enquanto na agricultura, 139 mil vagas foram extintas. Houve setores, porém, que contrataram, como na construção e no comércio, além de 208 mil funcionários a mais. Dá o que pensar.

Em âmbito internacional, no chove não molha (felizmente) entre Estados Unidos e Coreia do Norte, ouviu-se a embaixadora de Tio Sam na ONU, Nikiki Haley, no dia 30 do penúltimo mês do ano. No Conselho de Segurança, ela declarou que o mais recente lançamento de um míssil internacional pelos norte-coreanos deixou o mundo muito próximo da guerra.

Que guerra seria? Lembro, ainda com Emanuel Medeiros Vieira, Hiroshima: Na manhã de 6 de agosto de 1945/ a bomba de Hiroshima,/ a bomba,/ tão clara,/ cirúrgica. Bomba geométrica, certeira. A bomba vem do céu,/ mas não é ave./ A bomba vem de cima,/ mas não é Deus./ Desce fumegante,/ a bomba não negocia,/ a bomba não conversa célere, impositiva,/ acerta o alvo, cai,/ a bomba queima, a bomba dissolve,/ a bomba dilacera./ Alguém nasce no ano que ela cai,/ e pensa naquele 6 de agosto de 1945:/ segunda-feira – 8h15 da manhã:/Surpresa daqueles milhares de olhos./ Na véspera, a espera do lúdico no matinal domingo,/ parques, igrejas, passeios, visitas familiares./ Dia seguinte:/sem tempo para a reflexão – a chegada da não-ave, emissária de Tanato,/que cai, cai,/na paisagem limpa (cogumelos atômicos).

As instituições sobrevivem, a despeito de tantos. As investigações da PF ou os processos da Lava Jato não têm término. Aos mais poderosos, não interessa. Vale a pena cozinhar em banho-maria, para protelar, apela-se a todos os meios que a ciência jurídica possibilita. Há prisões e solturas, faltam cadeados eletrônicos, o transporte de réus e acusados, por terra, mar e ar, exige fortunas dos cofres públicos. O cidadão paga, a sociedade suporta.

Cícero, o grande tribuno romano, é lembrado: Até quando, Catalina, abusará de nossa paciência? Mas ninguém sabe mais quem é Catalina.

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