A saga dos Klabin-Lafer

Manoel Hygino / 13/11/2017 - 06h00

Ronaldo Costa Couto não para. Depois de escrever biografias de personalidades da vida brasileira contemporânea, como de Matarazzo, Juscelino e Tancredo, apresenta agora “A saga da família Klabin-Lafer” (Charmon Editora), muito mais do que sugeriria o título. Se bem que o autor define a sua narrativa como uma saga, deixa bem claro que se trata de algo além do convencional.

Ronaldo, cuja experiência com a pesquisa e a história já se tornou amplamente reconhecida, consegue vencer, mais lima vez, o desafio identificado por Rosa: “Contar é muito dificultoso. Não pelos anos que já passaram, mas pela astúcia que têm certas coisas passadas”. Confirma-se, ademais, o conceito de Leso Lafer na apresentação: “é um historiador que no exercício de seu ofício combina a seriedade da esquina aos dotes de escritor com estilo próprio”. Para seu projeto, Ronaldo mergulhou no mundo da família Klabin-Lafer, com a ousadia do primeiro do clã a imigrar para o Brasil, o judeu lituano Maurício Freeman Klabin, num tempo de certa insegurança, mas também de boas perspectivas, quando se instalara a República viera sozinho de Londres, sofrendo e arriscando a saúde e a vida na terceira classe de precário e assustador navio de imigrantes. 

Com 29 anos, solteiro, possuía pouco de roupa e vinte quilos de bom tabaco. Não falava o português nem os dialetos italianos dominantes. Não conhecia pessoa alguma. Ao final, fizera outra personagem central da história: chegou, viu e venceu. Não foi fácil, contudo, e a missão de Ronaldo foi exatamente contar tudo, sem bajulação a uma família que é um dos esteios da economia brasileira. Desde o lançamento da pedra fundamental da fábrica do futuro conglomerado industrial, no lugar denominado Harmonia, na Fazenda Monte Alegre, no Paraná, durante o Estado Novo, até agora, há mais um tempo muito extenso, mas para construir um império, que constitui neste segundo decênio, quase no ocaso, do século XXI.

O próprio autor descreve: uma das cinco empresas familiares brasileiras de expressão nacional criadas no século 19 e que chegaram a nossos dias. Opera 19 importantes unidades industriais em oito estados e uma na Argentina, é a maior produtora e exportadora de papéis do Brasil, outra em setenta países. É referência internacional em práticas ambientais e desenvolvimento sustentável, possuindo quase meio milhão de hectares de floresta nativa e plantações de alta produtividade, a ambientalmente certificadas, formando maior mancha verde do Sul do Brasil, observável do espaço, por satélite. 

Obra de Ronaldo, da Academia Mineira de Letras, não é um relatório administrativo ou um simples conto de uma epopeia de judeus da Lituânia que se transferiu à maior nação do hemisfério em momento de incertezas. Há entrevistas e a descrição de episódios muito preciosos. Ele inclui o caso daquele judeu bilionário, líder de poderoso conglomerado empresarial familiar, que – caminhando num oásis – tropeçou numa lâmpada maravilhosa. Pegou-a, esfregou-a, saiu uma fumaça azul se ouviu o gênio: “Obrigado por me libertar. Faça um pedido e será atendido”. A pergunta: “Como preservar minhas empresas e fortuna”. A resposta foi imediata: “Fuja de negócios ruins e de brigas de família”.

 

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