A via sacra dos tributos

Manoel Hygino / 04/06/2018 - 06h00

A greve dos caminhoneiros ainda repercutirá pesadamente no dia a dia dos brasileiros. Venceram-se apenas os entraves mais graves, um pré-caos, para impedir a marcha da nação a tempos mais funestos. 

Muito não se contou, nem se esclareceu ainda, sobre a paralisação de maio de 2018. Um movimento tão extenso, abrangendo todos os estados e o Distrito Federal, não se daria espontaneamente, sem que os muitos milhares de caminhoneiros tivessem conseguido adesão de Norte a Sul, de uma hora para outra. Os órgãos de inteligência certamente conheciam articulações e ficam na obrigação de revelar nomes ao povo.

Uma das causas da paralisação, a principal, suponho, não atinge exclusivamente essa categoria profissional: o alto vulto dos impostos. Não é de hoje. Há algum tempo, Francisco Guedes de Mello me encaminhou uma relação informando os países em que menos se trabalhou em um ano para pagar tributos, em 2011. Em primeiro lugar, as Maldivas, com zero horas, seguido dos Emirados Árabes Unidos, com 12 horas; na Europa, o sexto lugar – Luxemburgo, com 59 horas; a Suíça, em oitavo, com 63, e Irlanda com 76 horas. O Brasil comparecia à frente em todo o mundo com 2.600 horas, enquanto em 2º lugar estava a Bolívia, com 1.080, e o Vietnã, com guerra e tudo, com 941 horas.

Se isso já era muito, tínhamos a honra de ostentar a maior carga tributária do mundo, conforme dados do Banco Mundial (Doing Business 2011).
Não só caminhoneiros (e empresas do setor) pagam caro em impostos, nas cargas interestaduais: 2,65%. Medicamentos, por exemplo, levam consigo 44,4%; a conta de luz, 47,87%; o café, 36,52%, e assim por diante. O papel higiênico, cuja falta é notada na Venezuela, vem aqui com 40,5% de tributo embutido, sem falar na conta de telefone – com 49,78%, o cigarro (felizmente não fumo): 81,68%, além do macarrão, onerado em 35,22%.

A cerveja aparecia com 56% de imposto e a cachaça com 83,07%, evidentemente muito pesado para o incauto consumidor. Para aquecimento, observe-se que o cobertor traz consigo o peso de 37,2%.

Atente-se, ainda, para o fato de que, além destes tributos, o cidadão paga de 15% a 27,5% do salário a título de Imposto de Renda. Fora colégio dos filhos, IPVA, IPTU, INSS, FGTS etc. 

A máquina administrativa não funciona sem combustível, isto é, sem os recursos dos impostos. Ficou provado: o atendimento das reivindicações dos caminhoneiros e das empresas transportadoras de combustíveis vai gerar novos ônus para o cidadão brasileiro, já suficientemente informado a respeito pela mídia. Serão diminuídas as verbas destinadas à saúde, à educação, ao esporte e outras áreas. Daqui menos de sessenta dias saberemos onde mais seremos sacrificados. Devemos precaver desde já. O aperto verá irrevogavelmente. 

Apesar de tudo, continua – embora menos ostensivamente – a campanha política para as eleições deste ano, mesmo não se sabendo exatamente os nomes dos indicados e suas respectivas plataformas. Chamou-me a atenção a nota do colunista Leandro Mazzini, na edição da última sexta-feira: “Lula faz campanha dentro da cadeia. Tem usado os aliados que o visitam. O vereador Eduardo Suplicy levará mensagem do ex-presidente para a Parada Gay em São Paulo”. 

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