Desfile ameaçador na Coreia

Manoel Hygino / 08/05/2017 - 06h00

Diz a lenda que a atual península coreana foi dividida em três reinos no século anterior à Era Cristã. Vê-se que se teria de ocupar muito espaço para chegar a nosso tempo. O território, nos séculos seguintes, foi disputado por chineses, mongóis, japoneses e russos. Em 1910, o Japão anexou a região e tentou eliminar a língua e cultura coreanas. Durante a II Grande Guerra, milhares de cidadãos foram obrigados a trabalhos forçados.

A partir da rendição japonesa, após a explosão das bombas atômicas de Tio Sam, a península coreana foi dividida em duas zonas: a de ocupação norte-americana e a soviética. Criaram-se a Coreia do Sul e a do Norte, ambas reivindicando direito sobre todo o território. Oficializa-se o comunismo na Coreia do Norte, sob Kim II-Sung.

Em 1950, norte-americanos invadem o lado não comunista. A ONU envia tropas, com predominância de contingentes dos EUA e ocupa a Coreia do Norte. A China adere à luta e conquista Seul, capital sul-coreana. Tio Sam enfrenta a situação e expulsa os chineses, de volta ao Paralelo 38, que separa as Coreias. Mais de 5 milhões de pessoas morrem em três anos de conflito, dos quais 2 milhões de civis. Em 1953, há uma trégua com definição de uma zona desmilitarizada entre os litigantes.

Paz? Muito longe. A Coreia do Norte é reerguida com apoio da União Soviética e da China, caracterizando-se o regime pelo culto ao ditador Kim-II-Sung. Em 1990, a Agência Internacional de Energia Atômica vigia a situação: os norte-coreanos estariam desenvolvendo um programa nuclear militar.

Assim tem sido, desde então. E já somam quase 30 anos de beligerância entre as Coreias e de intranquilidade para o mundo, que não deseja mais um país no ameaçador clube nuclear. Com a permanente demonstração de forças em Pyongyang, capital do país do Norte, o atual líder, Kim Jong-Un, neto do fundador da dinastia, o mencionado Kim-II-Sung, deu uma altíssima demonstração de poder militar, neste abril, em resposta ao presidente Trump. 

Quem vê as fotos e as reportagens televisivas, em que aparece II- Sung, desconfia de sua saúde mental. Não parece um cidadão em pleno uso de suas faculdades. Assim apareceu nos desfiles pelas ruas de Pyongyang, no Dia do Sol, o de nascimento do criador da dinastia.

Após salva de tiros de 21 canhões, dezenas de milhares de soldados de Infantaria, Marinha e Aviação, desfilaram com o passo de ganso, virando a cabeça na direção do balcão onde o líder se achava, em terno preto. Destacamentos carregavam rifles ou lança-granadas, alguns com óculos de visão noturna e rosto pintado. Em seguida, vieram tanques e armas muito especiais: 56 mísseis de 10 tipos distintos, transportados por reboques e caminhões. Para o ditador e seu regime, um dia de festas. Para o resto do mundo, de preocupação. 

O país asiático já realizou cinco testes nucelares recentemente e pretende desenvolver um míssil internacional, capaz de atingir e destruir os Estados Unidos. O presidente dos EUA, Donald Trump, pela primeira vez, manifesta sua disposição de conversar com o líder norte-vietnamita, num encontro inédito. A iniciativa se resume a palavras – e não mais que palavras.

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