Diante de memorando da CIA

Manoel Hygino / 16/05/2018 - 06h00

Um documento da CIA, datado de 11 de abril de 1974, encaminhado pelo diretor Willian Colby ao secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger, somente há poucos dias tornado público, agitou os meios políticos, jurídicos e militares brasileiros, por óbvias razões. O memorando foi elaborado dez anos após a Revolução de 1964 (ou golpe, como preferem outros) e divulgado agora, quando todos os presidentes do período ditatorial estão mortos e sepultados.

O mesmo se refere ao período de transferência do poder ao general Geisel, informado de que mais de cem pessoas tinham sido executadas na gestão do seu antecessor, Garrastazu Médici. O sucessor teria orientado que o método de tortura e eliminação dos “inimigos” fosse mantido, mas apenas nos casos que envolvessem os considerados “perigosos”. 

Empossado em 15 de março de 1974, o general fez questão de esclarecer que queria fazer a reabertura política, mas sabia que a época lhe exigia muito cuidado para levar à frente seu projeto. Os setores de repressão não concordavam e abriram uma campanha contra os grupos contrários e as prisões ficaram lotadas, sucedendo-se as torturas pelo simples fato de não estar alguém ao lado do governo. 

Publica-se, neste 2018, muito a propósito, portanto, no Brasil e Portugal, pela Juruá Editorial, o novo livro de Paulo Fernando Silveira, “O voo do Carcará”, que descreve a suspeita sobre assassinato de um cidadão por agentes do Serviço de Inteligência Brasileiro.

O autor, com dezenas de livros bem sucedidos, conta como numa pequena comunidade no sopé da Serra da Saudade, perto de São Gotardo, a 250 quilômetros de Belo Horizonte, ocorrera a morte de um brasileiro que nada tinha a ver com a situação geral do país. Travava-se de uma guerra entre os militares no comando da nação e os grupos subversivos, lembrando-se a morte de Marighella e Carlos Lamarca. 

Nas células se reuniam guerrilheiros, e não apenas homens. Existia, por exemplo, Fernanda – uma bela jovem guerrilheira carinhosamente chamada de Nanda pelos companheiros, de olhos esverdeados, voz aveludada e sorriso enigmático. As discussões ali eram amplas e a troca de informações compreendia até a Operação Condor, chamada de Carcará no Brasil. A missão contava com apoio, não escrito, da própria CIA americana e tinha como objetivo a coordenação da repressão aos opositores de suas respectivas ditaduras.

A execução, em circunstâncias muito raras, de um anônimo homem do interior, numa região em que a agricultura era exercida por gente simples que e sem suspeitas, conduz a uma investigação extensa, que envolve interesses e ações internacionais. “O Voo do Carcará” chega, neste ano, às livrarias do Brasil e da pátria-mãe.

Paulo Fernando Silveira, mineiro de Conceição das Alagoas, membro da Academia de Letras do Triângulo Mineiro, advogado por 18 anos, professor universitário, depois de iniciar a carreira como magistrado federal em São Paulo, voltou para o Estado natal, servindo também em BH, Uberlândia e Uberaba no cargo. Sua produção revela um autor consciente, até porque vivenciou, aqui ou em suas viagens internacionais, a aventura à época em que os fatos ocorreram. 

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