Doenças sociais crônicas

Manoel Hygino / 13/06/2018 - 06h00

O mercado das drogas não foi afetado pela recente greve dos caminhoneiros. Não tenho conhecimento de qualquer tipo de prejuízo a ele causado, donde se pode talvez concluir que ele é mais forte do que os demais. Banana e batata faltaram em todas as grandes cidades. Os estupefacientes, não.

O professor Antônio Álvares da Silva, de nossa UFMG, Escola de Direito, já focalizou o problema mais de uma vez. Mais recentemente, comentou-se amplamente a legalização das drogas, sem qualquer medida prática. O próprio médico Drauzio Varela, muito conhecido no Brasil por suas sucessivas aparições na televisão, é enfático: “o uso frequente da erva agride artérias e predispõe a infarto, derrame cerebral e isquemia transitória. Maconheiro é louco para dizer que maconha não vicia e nem faz mal”.

Acrescenta: nos Estados Unidos, país em que a maioria de estudos foram realizados, o conteúdo de THC na maconha apreendida aumentou de 3% nos anos 1980 para 12% em 2000. Mas o aumento da concentração do componente ativo dificulta ainda mais a interpretação dos estudos sobre os efeitos do uso prolongado.

THC é o tetrahidrocanabinol, que expõe mais as pessoas aos insultos ambientais e drogas, entre as quais se inclui da fase pré-natal aos 21 anos de idade, quando o cérebro está em estado de desenvolvimento ativo. As consequências são muitas, como os transtornos mentais, na performance escolar, em acidentes e doenças pulmonares e câncer.

O próprio médico indaga: “e sobre os efeitos benéficos da maconha, nenhuma palavra? Lamento desapontá-lo”. 

Mas, como se fora interlocutor, o professor Antônio Álvares esclarece: 1 – As drogas são responsáveis por maior parte da criminalidade no mundo atual, principalmente nos países em desenvolvimento. 2 – O uso e o tráfico se transformaram em fator econômico, rentável como qualquer atividade econômica. “A melhor maneira de combatê-la ou pelo menos de controlá-la é mesmo a legalização das drogas. Lutar contra o visível e o concreto é muito mais fácil do que administrar o oculto e o imperceptível. Vendendo, é possível ao Estado um certo grau de controle e até de planificação da produção e do uso das substâncias nocivas”.

Será?

Reconhece Álvares que “o combate às drogas como crime é um fracasso em todo o mundo”. “Isto não significa que o direito abra mão de seus mecanismos sancionadores. Deles nenhuma sociedade até agora prescindiu”. 

Vê-se como é complexa a questão. Terminando: “a sociedade ainda não encontrou uma solução razoável. Crimes e desvios de conduta são inseparáveis do ser humano”. 

Como na medicina, há as doenças sociais crônicas, nunca podemos curá-las, mas temos de minimizar as suas dores e tratar os doentes que delas sofrem para que possamos viver juntos numa sociedade melhor”. Pelo menos isso, amenizar, enquanto se caminha para a solução adequada, que demorará muito, a despeito dos esforços. 

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