Em memória de Lúcia

Manoel Hygino / 27/07/2017 - 06h00

Num país de memória curta, em que se glorificam principalmente os ases do futebol e os artistas com mais proximidade com o grande público, como os da televisão ou da música popular, merecem respeito e elogio autores que se devotam a determinados estudos e ao resgate de quantos entre nós se dedicaram ao exigente ofício de escrever. 

Este o caso de Fábio de Sousa Coutinho, ao elaborar “LÚCIA – Uma biografia de Lúcia Miguel Pereira”; recentemente publicado em Brasília pela Outubro Edições. Chamam a atenção e comparecerem à biografia o útil e oportuno prefácio de Ánderson Braga Horta e o texto da última capa, de Danilo Gomes. São dois mineiros, de Carangola e Mariana respectivamente, o segundo, confrade na Academia Mineira de Letras.

O autor da biografia, Fábio de Sousa Coutinho, é sobrinho do historiador e Octávio Tarquínio de Sousa, unido em casamento até a morte a Lúcia, nascida – por capricho da sorte – em Barbacena. Curioso como os fatos e personagens se encadeiam neste livro que é uma das melhores produções no gênero que temos lido, recentemente.

Conhecer a vida, a formação intelectual e artística de Lúcia Miguel Pereira já é uma dádiva. Mas nos aproximamos também do esposo Octávio Tarquínio, com o qual passou período marcante da vida, confirmando a bênção no enlace, unidos até a morte, no trágico acidente aéreo em 22 de dezembro de 1959. Estavam de mãos dadas.

Através da biografia, somos apresentados e nos acercamos também de gente ilustre, entre os quais, por exemplo, Miguel Pereira, pai de Lúcia, médico sanitarista e cientista, nome de município em que residiu no Estado do Rio, antes Estiva. Um discípulo de Hipócrates que tanto se empenhou, como Oswaldo Cruz, à nobre missão, mas colhido prematuramente pela morte aos 47 anos.

Todos estes episódios tocam profundamente o leitor, que desejava saber mais sobre a autora de “Machado de Assis – Estudo Crítico e Biográfico”, que se consagrou de vez entre os autores focados no Bruxo do Cosme Velho.

Mas não só: Fábio nos introduz em outro tempo, não muito distante e na intimidade de brasileiros notáveis, entre os quais Santos Dumont, de volta da Europa depois das experiências e provas de engenho em Paris. 

Quando se dispunha Lúcia a participar de uma excursão aérea no Rio de Janeiro, para recepcionar o herói de Bagatelle, que chegava por mar, foi dissuadida pela mãe a não tomar o hidroavião em que se assentavam cientistas e outras personalidades brasileiras. Um avião de treinamento da FAB se chocou em pleno ar com o outro aparelho, resultando na morte de todos os passageiros e tripulantes. 

Fábio de Sousa Coutinho, membro titular do Pen Clube do Brasil e da Academia Brasiliense de Letras, presidente da Associação Nacional dos Escritores, com outros preciosos livros lançados, inclusive pela Thesaurus, da capital federal, foi efetivamente a “pessoa ideal para levar a efeito essa grande navegação biográfica; mercê do conhecimento pessoal do objeto de seu estudo, das afinidades morais e intelectuais com Lúcia Miguel Pereira e dos laços afetivos que os unem à grande escritora”, como bem o disse Ánderson.

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