Fachin evoca Ibsen

Manoel Hygino / 19/05/2017 - 06h00

Os acontecimentos mais recentes no âmago do governo brasileiro causaram  estupefação a um povo já desencantado com seus dirigentes. Por tanto tempo, estávamos à beira do precipício, mas caímos no vácuo. Nunca, jamais em tempo algum, pensar-se-ia que chegássemos a este ponto.

Aconselha-se meditar olhando em redor. A sugestão resulta da posição do ministro Edson Fachin, após participar de reunião no Supremo Tribunal Federal sobre o “volta ou não volta” de José Dirceu na prisão em Curitiba.

Naquela ocasião, Fachin, relator e voto vencido na matéria, lembrou um escritor que já foi mais conhecido no Brasil: o dramaturgo Henrik Ibsen, cuja peça “Casa de Bonecas” se tornou, tempos atrás, até popular entre nós. 

Fachin disse: “Saí daqui, ontem, com vontade de reler o Ibsen, em Um inimigo do povo e A história do doutor Stockmann”. O magistrado parece bom em literatura europeia. Evoque-se o autor norueguês, o tema, o personagem, segundo o resumo de Hélio Gurovitz: “Na peça de 1882, Thomas Stockmann é médico numa aldeia cuja economia impulsiona uma estação balneária. Descobre que as águas são contaminadas pelo esgoto de um curtume e tenta levar a notícia à imprensa, com base num laudo técnico. Seu irmão, prefeito, consegue evitar a publicação e lança um desmentido, para evitar que a cidade fosse prejudicada pela fuga dos turistas. 

Stockmann convoca, então, uma reunião para apresentar os fatos, mas é impedido de falar por uma aliança entre o prefeito, jornalistas e representantes dos pequenos empresários. Passa a vituperar contra a “massa amorfa” de cidadãos. “A maioria nunca tem razão! Esta é a maior mentira social que já se disse!”, protesta aos brados. 

“Quem constitui a maioria dosa habitantes de um país? Pessoas inteligentes ou imbecis? (...) Os imbecis formam maioria esmagadora. É motivo suficiente para que mandem nos demais”. 

A revolta popular é tão grande que Stockmann é declarado “inimigo do povo”. Perde o emprego, sua casa é apedrejada, é despejado, seus filhos são expulsos da aula, sua filha mais velha é também demitida da escola onde lecionava. Nem sair do país consegue, pois o capitão que lhe garantira lugar num navio também é demitido.

Hélio Gurovitz prossegue: Ao longo dos anos, Stockmann se tornou um símbolo. Contra tudo e contra todos, mantém suas convicções na defesa da verdade. É um herói que alerta sozinho para o desastre iminente e, embora certo desde o início, é rejeitado e enxovalhado, como a Cassandra da mitologia grega. Quem será nos dias presentes, o nosso dr. Stockmann?

A Noruega, como o Brasil, é plena de paradoxos geográficos, de contrastes telúricos, de asperezas e de encantos físicos. A alma do povo é bela e forte, mas vulnerável aos mais sabidos, oportunistas e desonestos. Estes devem ser identificados e descartados, e sobretudo no momento das dificuldades mais impressivas e das crises.

Então se permite revelar e debater preconceitos e ideias errôneas e as realidades dramáticas do país, pondo em foco, simultaneamente, os graves problemas da sociedade contemporânea. 

 

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