Holofotes sobre a Rocinha

Manoel Hygino / 09/10/2017 - 06h00

Reportagens e noticiários sobre a turbulência na Rocinha, na zona Sul do Rio de Janeiro, exigem hoje espaços enormes nas redes de televisão, que – se fossem matéria paga – demandariam milhões dos patrocinadores. Enquanto as Forças Armadas lá se mantiveram, serenaram os ânimos; com o retorno da tropa à caserna, voltou a preocupação, depois se repetiram os tiroteios, extensivos ao Vidigal, que é próximo. Na UPP da Cidade de Deus, policiais foram recebidos a tiros. Os agentes da lei não revidaram, evitando talvez uma batalha campal. 

Entanto, o problema é antigo, complexo, de dificílima solução, tanto que as tentativas de pacificação das antigas favelas (o nome passou para comunidades) foram frustrantes, para não dizer que fracassaram. Nos dias passados, a imagem de Nem, considerado chefe do tráfico da Rocinha, maior favela da América Latina, apareceu um sem número de vezes.

É sobre ele que comentamos, principalmente depois de o site brasil.elpais publicar matéria de Gil Alessi, focalizando-o. Conta-se ali que Antônio Bonfim Lopes, em dezembro de 1999, enfrentou com a esposa um grave problema de saúde da filha, Eduarda, de nove meses. Iniciou-se uma peregrinação por clínicas e hospitais, mas os diagnósticos eram desencontrados e não sobrou um fio de esperança. Mãe e pai, diz a notícia, se viram na contingência de abandonar seus empregos para tratar do bebê, afundando em uma dívida de R$ 20 mil.

Antônio, até então trabalhador responsável por uma equipe de distribuição de revista, se tornou o Nem, chefe do tráfico da Rocinha, o maior ajuntamento no gênero do hemisfério. O drama é relatado no livro “O Dono do Morro: Um homem e a batalha pelo Rio” (Companhia das Letras), do jornalista inglês Mischa Glenny. Durante a Festa Literária Internacional de Paraty, ano passado, o escritor se encontrou com Nem, que responde a oito processos e está condenado a 16 anos e oito meses de prisão por tráfico de drogas e formação de quadrilha.

Para contar a história, o autor ouviu amigos e inimigos do traficante, policiais, políticos e o próprio ex-secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame. Mas, para salvar a vida da filha, recorreu a Luciano Barbosa da Silva, o Lulu, chefe do negócio ilegal na Rocinha e uma das lideranças do CV – Comando Vermelho.

Jovem e inteligente, Nem se tornou importante, um “ditador esclarecido”, segundo o autor inglês: “ele entendia que o dono do morro deveria criar um círculo virtuoso que assegurasse o sustento da favela, devolvendo parte dos lucros à comunidade e produzindo um clima de crescimento econômico”. Estabeleceu-se um clima de paz, mas a “alta direção” do negócio sujo se dividiu, houve troca de comando. Nem, em circunstâncias misteriosas, acabou preso e levado a presídio de segurança máxima. 

Não tenho notícia da filha que se enfermara. Misha Glenny, o escritor inglês, anotou: “Os grandes traficantes brasileiros não moram nas favelas”; “a Rocinha não precisa de teleférico, mas sim de saneamento básico”; “Rio desidrata UPPs para transferir parte do efetivo das favelas para o asfalto”. Nem desabafa: “Mandar polícia não adianta. Tem quatro ou cinco pra tomar meu lugar se me prenderem ou matarem”.

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