Lugar ao sol para os negros

Manoel Hygino / 02/08/2018 - 06h00

Fala-se muito, muito se reclama, com ou sem razões, mas até agora nada ouvi sobre os 130 anos da Libertação dos Escravos, em 13 de maio de 1888. Uma exceção: no domingo, no Rio de Janeiro, houve uma passeata de protesto contra a violência que atinge as mulheres de cor no país.

Segundo uma das organizadoras da marcha, “o Estado Brasileiro tem um projeto de execução do povo preto. Essa execução não se dá só com armas de fogo. Ela se dá quando você não tem saúde, quando você não tem casa, não tem educação, não tem qualidade de vida”. A violência, contudo, sendo como referido, não é só contra as negras, mas contra o “gênero” feminino de um modo geral, a não ser as madames, as eleitas, ou nomeadas para cargos públicos importantes, nas três esferas do poder. O mesmo acontece com os homens.

O Brasil se orgulha dos que formam a população negra, em que se incluem Machado de Assis, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, Cruz e Souza, grande poeta de Santa Catariana, o jurista Pedro Lessa, do Serro-MG, o maior jogador brasileiro de futebol, que foi Pelé, o Édson Arantes do Nascimento (sem esquecer o famoso Leônidas), o ministro Joaquim Barbosa, lá de Paracatu, Noroeste do Estado, peça fundamental no processo do Mensalão, até com nome sugerido para a Presidência da República. E mais outros, que poderiam galgar posições de relevo, se tivessem vontade e oportunidade para subir as escadas da fama.

E não tivemos, Grande Otelo, arista de cinema, teatro e televisão? E o cantor e compositor Milton Nascimento, do Sul mineiro? Quem esqueceu Pixinguinha? Cá em Minas, não se permitirá o esquecimento – embora poucos saibam quem seja, de Francisco Paulo de Almeida, nascido em Lagoa Dourada, perto de São João del Rei, lugar que se tornou paróquia, em 1832, e pertenceu administrativamente a Tiradentes, para se tornar município e vila somente em 1911. 

Esse Francisco Paulo de Almeida era negro em um país de escravos, e se tornou o barão de Guaraciaba, por decisão da própria Princesa Isabel. Filho de modesto comerciante, família pouco conhecida, até o nome da mãe é alvo de dúvida, por ser escrava talvez. Seria Palolina, e seu próprio destino se perdeu em ínvios caminhos, ignorando-se a quem pertencia. Os próprios descendentes não têm precisa ideia de sua vida, possivelmente com nome de Galdina Alberta do Espírito Santo, conforme opina Mônica de Souza Destro, trineta do barão e residente em Juiz de Fora.

Mesmo assim, iniciando trabalho como ourives e abotoaduras vendidas na região aurífera de Minas, tocava violino em enterros, valendo-se moedas e dos tocos de velas que sobravam do funeral, antes de tornar-se tropeiro entre Minas e a Corte. Num segundo casamento, de que resultaram 16 filhos, tornou-se sócio do sogro, após cuja morte assumiu os negócios e fortuna. Ajudou na fundação de dois bancos, comprou fazendas no interior de Minas e no vale do Paraíba, chegou a ter mil escravos, pois essa era a mão de obra disponível”.

Muito mais a registrar.

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