Mariana está incólume

Manoel Hygino / 08/11/2017 - 10h43

Quem recorre aos jornais para atualizar-se ou ouve rádio e vê televisão, sabe da interminável tragédia que desabou sobre o subdistrito de Bento Rodrigues, no município de Mariana, há exatamente dois anos. Foi muito além dos dezenove mortos, do caos na localidade e tudo o que aconteceu e ainda acontece de ruim até a foz do rio Doce, quando suas águas se encontram com o Atlântico. 

O rompimento da barragem do Fundão, o maior desastre ecológico do Brasil em mais de 500 anos, passará à história tragicamente, pois haverá sempre dor e sofrimento entre os sobreviventes de novembro de 2015. “Isto é uma coisa que não vai sair nunca da memória”, disse um deles. 

Mas, quem não conhece o Brasil, quem vier do exterior e se programar para uma visita de passeio ou de estudos pelo circuito histórico poderá cortar Mariana de seu roteiro, ao saber da catástrofe. Entanto, mais do que nunca, a primeira vila, cidade e capital de Minas, precisa do visitante, de sua presença, de seu apoio. 

Com o tsunami de lama sobre Bento Rodrigues, a sede do município se esvaziou, seu movimento comercial decaiu, os bares, restaurantes, hotéis e hospedarias estagnaram. Os artesãos se viram na contingência de reduzir a produção, as próprias cerimônias religiosas foram prejudicadas pela diminuição de fiéis procedentes de todo o Brasil, até para deleitar-se com o som prodigioso de seu histórico órgão.

É imprescindível, todavia, que se proclame que Mariana está incólume, resiste e existe, espera. Sua tradição, sua cultura, a cidade e sua gente estão além do tempo e das desastrosas consequências das construções humanas. Ali, em cada canto, há algo valiosíssimo a apreciar, contos que vêm da época de Luís Vieira da Silva, presbítero secular, lente de filosofia e grande orador, ou de Cláudio Manoel da Costa, morto pelos colonizadores na Casa dos Contos, em Ouro Preto, nos dias da Inconfidência. 

Indo lá, poder-se-á evocar as mais dadivosas lavras, que se povoaram rapidamente com os milhares de aventureiros que acorriam de todas as partes do Brasil e do Reino, movidos – como registra Frièiro – pela ânsia de enriquecer depressa e regressar às terras de origem. Ouro Preto e o Ribeirão do Carmo ostentam as riquezas arquitetônicas de seus templos, de belíssimos museus. De Mariana foi arcebispo dom Oscar de Oliveira, que instalou uma série de empreendimentos para preservar o passado, como os mausoléus dos cemitérios, que guardam corpos daqueles que a nação conhece pelo nome e reverencia.

A antiga Vila Rica fica bem perto, mas é outra e tem identidade própria. Contudo, Mariana é Mariana e merece respeito quando se lembra que foi confirmada como Vila do Carmo ou Ribeirão do Carmo, em 1712, com jurisdição sobre todo o território a Sudeste da Capitania. Tornou-se diocese dos “padres da Inconfidência”, como anota J. D. Vital.

Ali se abrigavam no movimento libertador, além do cônego Luís Vieira da Silva, os padres Manuel Rodrigues da Costa, José da Silva de Oliveira Rolim, José Lopes de Oliveira e Carlos Correia de Toledo e Melo, todos denunciados por Joaquim Silvério dos Reis e degredados para prisão em Portugal. 

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