Na hora do naufrágio

Manoel Hygino / 01/09/2017 - 06h00

Há dias, publicou-se aqui comentário sobre a data de 91º aniversário de Fidel Castro, no último dia 13 de agosto. Ele não estava mais em vida, tampouco apareceu na mídia, como em anos anteriores. A memória humana é curta.

Ainda no oitavo mês, encontrei um depoimento de Augusto Frederico Schmidt sobre Vargas, que me enviara anos atrás o confrade Danilo Gomes, da Academia Mineira de Letras. Antológica, assim se referiu o acadêmico da velha Mariana àquela página. Relatava a audiência final do presidente, exatamente na tarde de 23 de agosto de 1954, véspera do trágico suicídio. Causara estranheza aquele encontro, num momento tão decisivo de sua vida, “quando restavam poucas esperanças, quase nenhuma, de que se mantivesse ele no poder”. O gaúcho confessou que queria ver e conhecer um relatório da missão de técnicos norte-americanos da Klein & Saks sobre alimentação no Brasil.

O texto do grande poeta é longo, mas mereceria leitura atenta de quantos viveram aquele instante grave da vida brasileira e pelos que apreciariam conhecê-lo melhor. Schmidt conta: “Lembro-me de que encontrei o Palácio quase vazio, nessa tarde triste e incerta de agosto. Medidas de defesa tinham sido tomadas, e o ambiente era de nervosismo contido. Havia pouca gente no Catete”.

Eis a cena seguinte: “Quando chegou a minha ocasião de entrar para a audiência, pouco depois das 17h, e a porta se abriu, ao olhar o espaçoso salão, não atinei imediatamente com Getúlio Vargas. Esperava-me ele de pé, num canto, de maneira que a própria porta o escondia. Ao saudá-lo, observei o seu abatimento físico. Estava quase magro, a fisionomia cansada, mas serena. Nenhum sinal que indicasse sentir-se o presidente assustado ou nervoso. Nenhuma impaciência, nenhuma demonstração de fuga de atenção”.

O poeta, um dos autores dos discursos de Juscelino, considerava tudo estranho diante das circunstâncias que Vargas vivia e, com ele, a nação, com sérios riscos à paz pública, ao destino do governo. Veio naturalmente a pergunta: “Como vai a situação? Que está acontecendo?”. O presidente esboçou um sorriso e afirmou que estava tranquilo: “Não faço ilusões sobre o momento. Conheço a gravidade de tudo, mas estou assim mesmo tranquilo. Não são os acontecimentos de fora que nos perturbam, mas o que está em nós mesmos. O difícil, o que provoca ainda indecisão, é a necessidade de tomarmos um rumo. Uma resolução. Mas quando, enfim, decidimos e sabemos para onde vamos e o que devemos fazer, isso nos tranquiliza. Eu sei o que devo fazer e para onde vou e é por isso que lhe digo que estou tranquilo. Vou numa só direção e para frente”. E fez um gesto que procurava exprimir certeza e convicção. Com as duas mãos abertas, em forma de asas, indicava um rumo no ar, uma espécie de voo. 

No dia seguinte, Vargas deixou a vida e entrou para a história. Seu interlecutor escreveu: “Quero lembrar-me apenas do presidente Vargas como o encontrei no seu posto, na hora do naufrágio, e do aceno que me fez quando, na hora de ir-me, já eu na porta do Salão de Despacho, voltei-me para vê-lo ainda uma vez. Sorriu-me então de longe. Parecia um capitão de navio a desaparecer nas águas revoltas”. 

 

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