O ciclo democrático

Manoel Hygino / 12/10/2017 - 06h00

Somos um país de contradições, embora a verificação não resulte em solução de nada e para nada. Leio, assim, as dolorosas notícias da falta de água principalmente no norte-mineiro, pedaço do sertão que nas fraldas da serrania nasce. Quem quiser saber mais e melhor encontrará excelentes autores, o mais conhecido dos quais o de Cordisburgo, João Guimarães Rosa, não aceito até hoje por todos.

Pois nesta época de seca, represas em baixo nível (como expressões verbais usadas no Parlamento) ameaçam o racionamento de energia e a elevação de tarifas. Mas localizo uma pequena nota, curiosa mas absolutamente verdadeira. O sentimento dos moradores no entorno da expandida penitenciária de Montes Claros, assentada em área residencial, é de perplexidade, espanto. Não passam pela mesma severa falta de água de outros bairros, há meses. A razão foi dada por fonte da Copasa: como são vizinhos da penitenciária, escapam do rodízio no racionamento de água, pois o presídio não é afetado, passando incólume pelo aperto da população. 

Enquanto assim acontece, acirra-se a disputa, já em âmbito judiciário, pela água consumida pela população das cidades de Coração de Jesus e Montes Claros. A magistratura acatou pedido do Ministério Público de Minas Gerais, suspendendo a construção de adutora de 56 km para levar a água captada no primeiro município, visando atendimento do segundo, em que já há rodízio na distribuição. A obra custará R$ 135 milhões, mas a multa, se não obedecida a decisão judicial, será de R$ 100 milhões, acrescida de R$ 100 mil em caso de descumprimento. Adota-se o refrão: em lugar onde falta água, todos gritam e ninguém tem razão. Ou todos a têm. 

A estação das chuvas, que tanta expectativa despertou em extensas regiões, depois do Dia de São Miguel, foi interrompida. O sol voltou, forte, enquanto milhões de brasileiros aguardavam o lenitivo que viria do céu, mas falhou.

No campo político-administrativo nacional, entramos em uma semana e dela saímos sem solução de problemas que nos afligem, o que não constitui novidade. Acumulamos desacertos por longo tempo e não seria em sete dias, contundentes os mais recentes, que nos ofereceriam propostas mais duradouras.

Nem tudo, todavia, está perdido e a fisionomia da economia melhora, já com resultado apreciável, embora pobre. De fato, a verdade verdadeira é que teremos de aguardar a eleição de 2018, pelo menos esperando que o eleitorado escolha os melhores candidatos, inclusive para a chefia da nação. Praticamente, ter-se-ia de refundar a nação, depois do descalabro dos intermináveis escândalos.

Conseguiu-se vencer um período dificílimo, ao custo de muito sacrifício a um povo cansado de manter incompetentes ou até disfarçados meliantes no exercício de importantes cargos públicos. Se vencermos este período, já nos podemos dar por satisfeitos. Evitamos pelo menos o pior, que seria a ruptura do ciclo democrático. No mais, repetiria Shakespeare: “que horas são, senhor? São horas de ser honesto”. O vate de Stratford-on-Avon com quatro séculos de sepultamento ainda pode fazer aconselhamento.

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