O envelhecimento, em qualquer lugar

Manoel Hygino / 07/11/2017 - 06h00

Suficientemente anunciado pela mídia de Belo Horizonte, ocorre hoje o lançamento do livro “Sou 60”, pela Libretteria Editora, durante o bem recebido “Sempre um Papo”. Roberta Zampetti comparece ao auditório da Cemig, na Alvarenga Peixoto, para o ato, concomitante com debate sobre a matéria.

Tudo no melhor dos conformes, em consonância com a popularidade da autora, o prestígio do programa e a expectativa. Sintetizando, a capa diz: “Diário de uma jornalista em busca de repostas sobre o envelhecimento e a vida”. E tudo, realmente, deu certo. 

O assunto, tão importante em um país no qual a população aumenta incessantemente de idade, foi longa e agradavelmente exposto na publicação. A autora não quis falar de cátedra, simplesmente dissertar, e o fez bem, sobre um problema que muito nos afeta e tanto exige dos governantes, mas igualmente desta gente, que diminui em número de filhos mas não em número de anos vividos. 

Vê-se, pelo dito e pelo que faltará dizer, que é tema de interesse geral, complexo talvez, mas do qual se desvencilha com naturalidade e facilidade a estreante escritora. No prefácio, o médico Alexandre Kalache adverte: “Acho que o mundo, daqui para frente, vai ser muito melhor exatamente porque teremos muito mais pessoas longevas (....). Estamos todos envelhecendo: quem tem 5, 15,40 anos também está envelhecendo. (...) Está demorando um pouco para nos conscientizarmos disso porque temos quase uma obsessão pela juventude, de nos mantermos jovens, de fazer cirurgia plástica, de esticar, de malhar, mas acho que daqui a pouco vamos cair na real de que envelhecer é bom para a sociedade”. 

Roberta desperta o leitor para essa realidade, recorrendo a personagens e fatos que marcam sua carreira como jornalista de televisão, em contato diário com os que sofrem com as vicissitudes ou se contentam com as alegrias de viver. Não se restringe, porém, a referir-se a numerosos casos para referendar pontos de vista e experiências. 

Recorda-se, por exemplo, uma creche existente em Seattle, nos Estados Unidos, que funciona em um asilo. Juntam-se as duas coisas: a energia das crianças e a vivência dos idosos. Estes recebem carinho e são estimulados, intelectual e fisicamente, pelos exercícios dos pequenos. Algo que tem dado certo e que não sei se existe no Brasil. 

A autora observa que projetos assim (e cita vários outros) vêm ganhando corpo de várias formas, de modo que o horizonte é de propiciar o surgimento de novas relações afetivas e histórias para contar.

O livro merece mais do que um lugar em biblioteca, porque será companheiro nas inseguras horas cotidianas. Não esqueceria outro comentário, este do nosso Hélio Pellegrino: “A coisa mais importante do mundo é a possibilidade ser-com-o-outro, na calma, cálida e intensa mutualidade do amor”. O Outro é o que importa, antes e acima de tudo. Por mediação dele, na medida em que o recebo em sua graça, conquisto para mim a graça de existir.

Observação pessoal e final: talvez o título mais adequado fosse: “Estou 60”, como disse alhures o ex-ministro da Educação, membro da ABL, Eduardo Portella. Porque a vida continua.

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