O legado do dignatário

Manoel Hygino / 13/09/2017 - 06h00

Lembramos os vinte anos de falecimento de dom Oscar de Oliveira, aos 85 anos, arcebispo de Mariana, quando Belo Horizonte, festejava seu centenário. J.D. Vital, culto homem de imprensa, o reverenciou, em 10 de agosto, com uma palestra objetiva e lúcida na Academia Mineira de Letras, a que o alto dignitário pertenceu ocupando a cadeira de nº 27, na vaga de dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta. 

Muitas perdas, no circuito internacional, registrou o palestrista, mas dom Oscar foi dos menos recordados. Naquele ano, partiram: Deng Xiaoping, o criador do capitalismo de Estado na China; Diana, “a princesa do povo”, da Inglaterra, num túnel em Paris; Herbert de Souza, Betinho, da campanha contra a fome; Vicente Matheus, presidente do Corinthians; Darcy Ribeiro e Paulo Freire; o jornalista Paulo Francis; Walter Clark, diretor da TV Globo; e a recém-canonizada Madre Tereza de Calcutá, criadora das missionárias da caridade na Índia.

Sucessor de dom Silvério Gomes Pimenta e de dom Helvécio Gomes de Oliveira, dom Oscar morreu na madrugada de 23 de fevereiro, em Entre Rios de Minas, onde nasceu e foi coroinha. Praticamente esquecido, a despeito de sua grande importância cultural. 

A explicação é de Vital: razões ideológicas e armadilhas da história. “Parte da esquerda católica tomou nota, parágrafo por parágrafo, palavra por palavra, da carta-pastoral que o arcebispo escreveu em 9 de fevereiro de 1964, intitulada “Comunismo, Religião e Pátria”.

Em 1966, “outro acontecimento deu versão a novos comentários e posicionamentos dos devotos do esquerdismo denunciante na Igreja. Em 8 de setembro, após uma série de desavenças, mal-entendidos e incompreensões, foi fechado o Seminário Maior de Mariana, conforme relato em meu livro A revolta dos anjos de Minas ou da diáspora de Mariana”, afirma Vital. 

Resultado: “O episódio feriu e amargou a alma católica de Minas. E ganhou o furor nacional de muitos esquerdistas católicos que, às vezes, para estribar suas convicções ideológicas, costumam lançar ao geena da história quem pensa ou age de forma diferente da deles. Dizia-se, em visão simplista, que o seminário fechara porque o arcebispo, alinhado ao governo militar, batia-se contra os avanços do Concílio Vaticano II”.

A questão era mais ampla e profunda, gerando “a má vontade dos que pouco o consideram (ao prelado), seja no campo pastoral, seja no cultural ou na literatura”. Tem-se omitido que dom Oscar criou o jornal “O Arquidiocesano”, que circulou 36 anos, e instalou uma gráfica para editá-lo, não se lhe reconhecendo o legado, inovador e patriótico, ao patrimônio histórico, artístico e cultural de Minas Gerais”. Seus vanguardismo inspirou a criação de museus de arte em Minas, a exemplo dos de Arte Sacra e o de Música, em Mariana reconhecidos pelos organismos culturais do mundo ocidental.

Uma palestra, esta do J.D. Vital, que precisa ser conhecida pelo expressivo número de informações. E ele fala de cátedra, inclusive por ter sido chefe da assessoria de imprensa de Tancredo Neves, que saudou dom Oscar em sua posse na Academia Mineira de Letras.

 

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Comentários