O mundo pós-Chaplin

Manoel Hygino / 16/02/2017 - 06h00

O mundo mudou desde o nascimento do cinema e mudou imensamente com ele. A sétima arte é uma espécie de fronteira cronológica: antes e depois. Mas, nesta era tormentosa que enfrentamos, não podemos esquecer personalidades que se tornaram glória na sétima arte. 

Entre elas, certamente Charles Chaplin, um inglês nascido em abri (meses antes de o Brasil em 1889 transformar-se em República), para falecer 88 anos após, em dezembro de 1977. Quarenta anos decorridos e jamais esquecidos! Quanto aconteceu nestas décadas, vividas intensamente pelo ator, diretor, produtor, humorista, empresário, escritor, comediante, dançarino, roteirista e músico, que superou os limites do século XXI. 

Notabilizado pelo uso da mímica e da comédia-palestão, inspirou e incentivou cineastas posteriores, sendo mais do que grande por ter-se consagrado gigantesco, como escreveu Martin Sieff, em prefácio de livro. Viveu a tragédia das duas primeiras grandes guerras e sensibilizou um mundo dilacerado pelos conflitos, trazendo o dom da comédia, de risos e alívio, enquanto ele próprio se multiplicava como homem e como artista.

Durante mais de cinco décadas, através da Grande Depressão e da ascensão de Hitler, permaneceu inabalável no ofício. Foi maior do que qualquer um. Não se acredita que algum outro indivíduo tenha propiciado mais entretenimento e prazer a tantos seres humanos, exatamente quando eles mais precisavam. 

Na Primeira Grande Guerra, na Segunda Grande Guerra, no início da Guerra Fria, e prevaleceu a forte personalidade de um homem que sofreu com os problemas dos pais: mãe internada em um manicômio, pai alcoólatra. Dividiu pesadamente as alegrias e as dores do mundo e pairou sobre eles. Transmitiu imagens e sentimentos de solidariedade, de amor ao próximo, de oposição aos que se opunham às expressões de liberdade.

No mundo dilacerado deste segundo decênio do século vinte e um, somos atraídos a buscar em seus textos alguns momentos para meditação, colhidos em seu belo filme “O Grande Ditador”, supostamente longínquo do precursor “Em busca do Ouro” e de “Luzes da Cidade”.

Na película do cinema falado, explica-se: “Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio... negros... brancos. Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros?

Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades. O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... Levantou no mundo as muralhas do ódio... E tem-se feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios.

Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido”. 

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