O país que aí está

Manoel Hygino / 30/05/2018 - 06h00

A greve dos caminhoneiros incomoda o Brasil há vários dias, gerando repercussão altamente perniciosa aos que vivem neste país. Mais do que incomodar, causa prejuízos à confiança em quantos insistem em depositar boas expectativas sobre nosso futuro. O presente está aí, escancarado e doloroso, para quem atravessa tão tormentoso período, que poderia ser de tranquilidade e de realizações.

Tantos dias passados do início do movimento que paralisou o país, ele nos lembra, por óbvios motivos, como assinalei em escritos anteriores, aquele que resultou no relato de John Reed. O livro recebeu o título de “Dez dias que abalaram o mundo”, transformado em filme, enquanto se sepultava o corpo do autor junto ao de Lênine na base do Muro Vermelho do Kremlin.

Outras personalidades certamente estão, neste momento, descrevendo as dificuldades remanescentes da paralisação de maio; quando não a angústia da nação, com mais de 8 milhões e 500 mil quilômetros quadrados e enfrentando a borrasca, embora pudesse oferecer a seu povo paz e felicidade.

Mais de um século transcorrido, o Brasil vive problemas que já deveriam inexistir, tantos os exemplos que se colhessem no desenrolar da história, mas não o foram. No instante em que redijo estas mal traçadas linhas, o país segue parado, frustrando os que se esforçam para dar sequência à construção de um lugar melhor para viverem as vindouras gerações. 

Oxalá não tenha êxito os inúmeros aproveitadores da situação, de todas as procedências e tendências. Porque milhões de trabalhadores se encontram ociosos, enfrentando vicissitudes sem encontrar meios de sustentar-se e à família. 

]Somente agora se desperta para a dura realidade, para as causas múltiplas que geraram o caos anunciado e pressentido. A palavrinha de quatro letras – Caos – passou a fazer parte das manchetes das folhas que circulam, porque os patrícios que circulam pelas rodovias ou ruas já o padecem no sacrificado cotidiano.

Monteiro Lobato e os remanescentes da antiga luta do “Petróleo é nosso” devem sentir-se frustrados, porque o ouro negro, fator de progresso, resultou em inquietação. Esta poderia conduzir a desvios gravíssimos de conduta dos que não estão “nem aí” para os superiores interesses da pátria. Aliás, uma palavra pouco utilizada em tempos mais recentes.

Escondeu-se a verdadeira face do problema do petróleo. Se era fator de esperança, chegou a quase desastroso, pela insânia voraz dos maus brasileiros que não podem ver uma porta de cofre aberta

No domingo, 27 de maio, gente de todos os recantos se perguntava como seria o dia seguinte, diante da falta de meios de transporte e de combustíveis. Os médicos poderiam ir aos hospitais? E a enfermagem? E o bancário ou balconista? Domingo, em muitas cidades, não houve veículos coletivos. Mas era um dia para descanso. O seguinte, contudo, trabalho. Como fazer? Para Antônio Machado, omite-se presentemente, “a captura do Estado por oportunistas de todo tipo”. 

Darcy Ribeiro dissera: “não gostamos do Brasil que aí está, tão espoliado pelos ricos e tão sofrido pelos pobres”.

 

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