O que falta fazer

Manoel Hygino / 01/06/2018 - 06h00

Penso em falar em literatura, comentar novidades que surgem a cada dia, referir-me aos escritores já conceituados que continuam em atividade, mas enfim caio no atual lugar comum de resignar-me à situação política, e, como não poderia deixar de ser, à greve dos caminhoneiros, cujos efeitos nocivos ainda serão sentidos por muito tempo. Não poderia ser de outro jeito.

Mas, encontro um artigo assinado por Frei Betto, publicado em novembro de 2013, e cujo teor se insere nos fatos de agora, cinco anos após. O articulista focaliza vários assuntos e, em determinado trecho, pergunta: “amigos de ‘esquerda’ se queixam que os aeroportos estão demasiadamente cheios de famílias de baixa renda. No Nordeste, o jegue foi trocado pela moto. E as multinacionais automotivas continuam a entupir nossas ruas de carros, sem que haja investimento em transporte coletivo”. 

O leitor já parou para meditar sobre estas questões e tem resposta? Frei Betto, colaborador semanal deste jornal, comentou: “É o efeito Tostines no Brasil: os produtos são caros porque dependem do sistema rodoviário? Ou os produtos são caros porque os caminhões são abastecidos com petróleo? Temos 8 mil quilômetros de litoral, rios caudalosos navegáveis e quase nenhuma navegação comercial. E quando se fala em ferrovia se pensa em trem-bala, capaz de transportar a elite do circuito Campinas-São Paulo-Rio e não trilhos que cortem o país de ponta a ponta, facilitando o escoamento barato de nossa produção”.

Após tecer críticas compreensíveis ao governo federal reinante em 2013, o popular e prestigioso sacerdote mineiro, amigo do saudoso Roberto Drumond, registra que o Ipea, órgão federal, aponta que a desigualdade social entre os mais ricos e os mais pobres no Brasil é de 175 vezes, uma constatação detestável. Aí, vem uma pergunta indispensável: “por que não são tomadas medidas estruturais para reduzi-la? Em dez anos de governo petista, houve apenas uma reforma estrutural no Brasil, a da Previdência do funcionalismo público, que favorece o capital privado. Enquanto o orçamento da República destinar mais de 40% do nosso dinheiro para pagar juros, amortização e rolagem da dívida pública, e menos de 8% para a saúde e a educação, o Brasil continuará sonhando em ser o país do futuro”.

As respostas são ouvidas, frequentemente, por políticos, intelectuais, juristas, jornalistas, enfim os que ainda neste país pensam e opinam, mas tudo fica com dantes. Recordo que um dos que se expressam sobre o tema defende que reações humanitárias comprometidas com a justiça são fundamentais para promover as transformações sociais almejadas. Haverá muitas perdas nas eleições deste ano, objeto de insinuações não gratas, com pouco impacto nos processos de mudança. Certamente, muitos eleitos repetirão erros e continuarão presos a interesses pouco confessáveis e nobres.

A sociedade civil precisa reagir, comprometida com a verdade, com o bem, com o interesse coletivo, para que se conquistem avanços úteis ao futuro.

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