O sonho com Portugal

Manoel Hygino / 02/08/2017 - 06h00

Assim como Pedro, o Álvares Cabral, descobriu o Brasil há mais de cinco séculos, os brasileiros estão descobrindo Portugal desde a virada do centênio passado. Sonha-se e planeja-se ir a Portugal, para passeio, para estudos, para congressos, para viver. Não sem razão o ex-presidente Sarney tem mansão lá, e outros aqui nascidos e os chineses estão investindo no mercado imobiliário luso. 

Quanto a mim, sonhei com o “The Literary Man” – que pretensão! – um hotel literário localizado em Óbidos, cidade medieval do interior de Portugal, que tem livros em vários ambientes. Um castelo no alto de um morro abriga 30 quartos, restaurantes, biblioterapia e relax, com uma coleção de 45 mil obras e livrarias. 

Ao que ouvi dizer, há ainda um cardápio com comida tradicional portuguesa, Tapas da Terra e do Mar, menus literários, pratos vegetarianos e carta de vinhos raros. Há, também, um Gin bar, que oferece coquetéis literários, uma coleção de gins priores com tônica e cubos de gelo originais, feitos com aromas bios da horta. Vê-se que se trata de um lugar para cultor das letras de país algum botar defeito.

Mas, o escritor Ronaldo Cagiano, nascido em Cataguases, após dez anos em São Paulo e 28 em Brasília, aposentado na Caixa Federal, em 2016, após 35 anos de trabalho e 37 de contribuição previdenciária, decidiu mudar-se com Eltânia, também escritora, para buscar a tranquilidade que por aqui se tornou rara. Confessa-se, agora, em porto seguro.

O primeiro mês foi em Lisboa, até conseguir um imóvel em São Pedro do Estoril, a dez quilômetros do centro da capital. “O apartamento fica a 50 metros da estação e a natureza em redor tem sido nossa aliada nessa busca de qualidade de vida e tudo que contribui para nosso processo de leitura e criação”. 

A mudança foi resultado de longa meditação. Nos últimos três anos em São Paulo, o casal foi vítima de dois assaltos à mão armada, além de, em julho de 2016, um sequestro relâmpago. 
A descrição diz muito.

“Nosso carro foi tomado por três bandidos armados na saída da loja Leroy Merlin, na marginal Pinheiros. Eles nos levaram a um cativeiro numa favela e por quase três horas, sob mira de armas, fomos obrigados a entregar todos os nossos 4 cartões bancários (conta corrente, poupança e cartões de crédito e respectivas senhas) e, enquanto nos mantinham sob pavor, sacaram de nossas contas, além de roubarem o que tínhamos no carro e nos bolsos...”

“Essa experiência derradeira (fomos soltos e com vida por milagre, porque os bandidos conseguiram o intento) foi a pá de cal de nossa permanência no país”... Não só: a derrocada do sistema político-administrativo-social também influenciou a transferência. “Por isso vai alargando mais o fosso entre classes, gerador da miséria e da violência crescente”. Mas há uma deixa: “que a literatura continue a ser a ponte para saltarmos por cima desses escombros e realizar o verdadeiro salto dialético, porque é o único território, como dizia Hortrop Frye”.

Muitos pensarão como Ronaldo e Eltane. Já estão inventando meios para percurso de volta de Cabral (falo de Pedro Álvares) há quinhentos anos. Só posso, contudo, lamentar que a viagem do nosso conspício e apreciado Artur Almeida, da TV Globo Minas, não tenha colhido os objetivos da alma. Ele encantou, e volta agora ao seu torrão para último abrigo.

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