Os líderes, segundo Gamaliel

Manoel Hygino / 17/05/2017 - 06h00

Enquanto acompanhávamos com todo o Brasil as audiências em Curitiba, vinculadas à Lava Jato, mantivemo-nos ligados ao julgamento de Jesus, em Jerusalém, como lembrou a Semana Santa. Assim, lemos a extensa carta do rabino Gamaliel ben Gamaliel a Filo de Alexandria. É um documento valioso, mas pouco conhecido, necessário para se ter uma ideia do clima na Judeia, em torno de 2000 anos atrás.

Gamaliel ben Gamaliel é tido como filho mais novo do rabino Gamaliel, o Antigo ou o Ancião, citado por várias fontes rabínicas. No documento aqui referido, o Gamaliel Júnior abre-se a Filon, ou Filo de Alexandria, filósofo judeu helenista. Sente-se pelas suas palavras a preocupação com o aparecimento de Joshua, isto é, Jesus, em meio àquele território de difícil governo, em que espocavam, aqui e ali, ontem e hoje, disputas de natureza material e religiosa.

Joshua procedia do Norte e, assim, não merecia muita confiança dos habitantes de outras regiões. Embora a crucifixão tivesse transcorrido há alguns anos, Gamaliel temia repercussões entre o povo. Mas admite: “Esse Joshua era, como João, um pregador do reino de Deus que muitos agora desejam. Não ter Joshua ambições políticas pode, porém, ter sido seu erro”.

Continua o raciocínio: Ele tinha discípulos entre os zelotas, que devem ter atribuído segundas intenções ao seu dito “Não vos trago a paz, mas a espada (Mt 10,34)”. Todos iludidos! Joshua aconselhava não resistir ao mal, porém a “dar” a outra face (Mt 5.39). Conselho bem prudente, eu diria. “Há rumores de que um dos seguidores zelotas o traiu perante os romanos, irritado porque Joshua não convocava para um levante popular, sequer a esperança de que sua morte provocasse um”.

Gamaliel lamenta que os romanos não faziam distinção entre movimentos religiosos e políticos, nem sabiam a diferença entre judeus, samaritanos e galileus. De todo modo, “com tantos judeus esperando um ungido, o messias que nos liberte, o atual temor dos romanos, não me parece de todo infundado”. Na crucificação de Joshua, porém, zombaram dele, mas ele contestava para dizer que “o reino de Deus está dentro de vós” (Lucas 17.21), significava o versículo que diz “a Lei não está no Céu; mas ao nosso alcance para que a coloquemos em prática”.

Gamaliel observa que “um líder martirizado tem vantagens sobre um líder vivo: não se pode matá-lo outra vez. A questão é: pode um líder martirizado continuar a liderar?” A pergunta se me afigura adequada ao agora. Jerusalém virou Curitiba? O texto lembra ainda que, “em nossos dias, a maioria sustenta, com Ezequiel (Ez 18), que ninguém morre pelo pecado de outrem, mas pelos que comete”. 

Aqui se pergunta ainda: Por que Pôncio Pilatos entrou no Credo? O personagem não foi querido entre os judeus, como se sabe e, de volta a Roma, morreu envenenado. Gamaliel se confessava feliz por assistir ao fim do potentado romano. “Velhaco assassino não merecia destino melhor que o que ele reservou com tanta presteza para os outros. Pelo que se sabe, apoiou um candidato para apossar-se do Império, mas perdeu”. 

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