Os trilhos do progresso

Manoel Hygino / 07/06/2018 - 06h00

A greve dos caminhoneiros terminou há vários dias, mas deixou funestas consequências no cotidiano brasileiro, resultado de uma visão um tanto estrábica da realidade. Ao longo do tempo, preferiu-se e adotou-se a solução ferroviária para a comunicação entre extensas regiões e o escoamento da produção. 

Lamentavelmente, o Brasil se diz com pressa e esta é repetidamente sinônimo de imperfeição. Nas pequenas coisas e nos grandes empreendimentos, assim ocorre, mas não se aprende. Depois da paralisação do transporte rodoviário por cerca de dez dias – dez dias que abalaram a nação, para repetir o título do livro de John Reed sobre a revolução russa de 1917 –, chegou-se à conclusão de que, mais uma vez, se errara.

Hoje, segundo leio nos jornais, seriam necessários quinze anos para reparar o mal, em busca do tempo perdido, para furtar de Proust o raciocínio. A malha ferroviária do Brasil tem 30,5 mil quilômetros, enquanto a rodoviária chegou a 1,7 milhão de quilômetros. Percentualmente: 1,7% de ferrovia contra 61,1% de rodovia. 

Com a extensão territorial do país, continua-se a insistir em aproximação e integração. Os antigos governos não estavam preparados financeira e tecnicamente para implantar grandes estradas de ferro para responder aos imperativos do desenvolvimento. Lideranças regionais cuidaram, assim, de estender trilhos entre regiões distantes, diante da lentidão ou da letargia oficial. 

No caso específico do Norte de Minas, já antes da República se organizara uma sociedade anônima, sediada no Rio de Janeiro, a capital do país, para se construir uma ferrovia ligando Montes Claros, a principal cidade, a Extrema, no Rio São Francisco. As primeiras providências vieram no ano seguinte, quando os engenheiros se puseram em ação. Houve festa, com música e foguetório, passeatas...

Tinha-se projetado antes outras ferrovias, mas ficaram no papel, como se diz. A depois denominada Central do Brasil, porém, continuava um tanto a passo de tartaruga, mas andava. Foi aí que entrou em cena Francisco Sá, como lembra Hermes de Paula, médico e historiador, que registra em livro a invasão da cidade por tarefeiros e auxiliares. Os trilhos iam chegando. Em 7 de junho de 1924, o ministro nascido na região inaugurou a estação ferroviária de Bocaiúva, causando ciúme na gente de Montes Claros. O tempo fluía e a ansiedade aumentava.

A inauguração seguinte, fim de linha, levou o ministro Francisco Sá para a solenidade em 1º de setembro de 1926, considerado desde então “o maior dia de Montes Claros”. A estrada chegara para facilitar o comércio, as comunicações e a indústria, eu inevitavelmente seguiria o exemplo. 

Como se esperava, houve discurso, bandeirinhas de papel crepom, queima de fogos, manifestações populares que atraíram a população. Ofereceram-se banquetes e baile, assentando-se a pedra fundamental do monumento que se ergueu na praça junto à Estação. 

Repetindo: com a paralisação rodoviária de maio de 2018, pôde-se sentir a importância do transporte por trilhos, inclusive porque, nos incômodos dias recentes, o metrô de Belo Horizonte também interrompeu seus serviços por alguns dias e horários. Voltar atrás na memória pode ajudar na definição de planos e projetos úteis à sociedade. 

 

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