Os ventos maus da furdunça

Manoel Hygino / 29/08/2017 - 06h00

Ouvi dizer e gravei para investigar a palavra furdunço, não encontrada na obra de nosso Guimarães Rosa até onde pude pesquisar. Segundo Francisco Fernandes, um dos bons dicionaristas brasileiros e por sinal mineiro, significa pândega ruidosa, desordenada; festança de baixo povo; barulho, desordem. Há a variação “forduncio”, isto é, mexerico, falatório, e o correspondente verbo furdunçar, ou seja, pândegar, divertir-se ruidosamente. E furdunceiro é aquela pessoa que faz furdunço.

Quanto ao conspícuo Antenor Nascentes, sequer registra o vocábulo, que aparentemente muito enquadra o período difícil da vida brasileira que ora se atravessa. O termo e respectivos sinônimos dão uma ideia geral da presente hora da história brasileira, em que costumes antigos, bons, foram extintos, enquanto outros se introduziram no cotidiano, sem serem os mais indicados e saudáveis. Sinal dos tempos, sem dúvida.

No campo político, nunca antes houve tamanha balbúrdia, ninguém confia em ninguém, o que se hoje se diz amanhã se desdiz, membros do Ministério Público contestam os magistrados; os juízes – mesmo os do mais alto tribunal de Justiça do país – não falam apenas nos autos, como era de tradição. Em verdade, exige-se hoje atualização permanente, sem o que se sujeita o cidadão a equívoco. 

As cidades e os campos estão infestados de bandidos de toda natureza e procedência, motivados pelos mais sórdidos projetos, enquanto o cidadão, que paga tributo pesado e vota, se vê prisioneiro dentro de sua habitação, seja um casebre ou palacete. Perdemos a confiança nos organismos de segurança, eles mesmos infiltrados por foras da lei, como se verifica incessantemente pelos meios de comunicação.

Enquanto os usuários reclamam da qualidade do transporte urbano, ajuntamentos de vândalos ateiam fogo aos coletivos, reduzindo a frota disponível e, consequentemente, causando prejuízo à maioria da população. Não fora suficiente, em Belo Horizonte outros grupos, não ainda devidamente identificados, mas de provável composição, interrompem a limpeza urbana e incendeiam os caminhões, na cidade que tanto reclama dessa prestação de serviços.

Não muito diferentemente é o que se constata frequentemente quando manifestações populares, pacíficas, são utilizadas para desencadear os instintos destruidores de chusmas de desordeiros, que jamais pagam devidamente pelo mal que a todos atingem, ao quebrar portas de vidros de comércios e tudo o que neles deparam. 

Refiro-me, às vezes, à triste situação a que chegou a Cidade Maravilhosa, em que o crime organizado enfrenta, frequentemente com vantagem, as forças policiais. Mas se, de um lado, uma centena de PMs já perdeu a vida diante dos delinquentes, não se pode deixar de anotar que, por uma única medida, quase outros cem soldados fluminenses, por sua atuação ao lado ou a favor do crime, mais bem preparado para embates e possibilitando maior rentabilidade.

O mundo da droga se instalou, forte e cruelmente, em todos os rincões do país, na mansão ou na favela, arruinando conceitos pessoais e familiares, algo semelhante com o descrédito em que desabaram escalões superiores do poder público. Tudo isso, ao que me parece, é concernente à furdunça, que quer tomar conta do restante da pátria, salve-salve! 

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