Por um mundo mais justo

Manoel Hygino / 05/08/2017 - 06h00

Enquanto no Brasil se engalfinha na complicada refrega para sair do pântano em que se afundou, volto os olhos para tempos antigos. Há cerca de dois mil anos, viveu um judeu, cujo nascimento e vida até hoje são motivos de dúvidas e discussões, mas também de fé e de esperança para milhões. 

Socorro-me com Allen Secher, conselheiro de um grupo de diálogo judeu-cristão, em Chicago, que trabalha em apoio e educação a 550 casais inter-religiosos. Aliás, ele é produtor de televisão e já ganhou sete Emmys, o mais recente um especial sobre a resistência em Auschwitz, apresentado por Ellen Burstyn, ganhadora do Oscar. 

Comparo o Brasil de hoje às primeiras décadas do século I. Assim como nosso país não é o que nossos dirigentes prometeram, o mundo dos judeus não era o que Deus tinha prometido; estava ainda mais longe de ser o “reino” perfeito, objeto de tantos anúncios e anseios. Em ensaio, Secher alinha argumentos: os judeus sofriam sob severa dominação romana, seu mundo estava marcado por uma amarga desolação. “Um por cento da população – os dirigentes e a aristocracia – controlava a maioria das propriedades. Parte da terra estava nas mãos da pequena classe alta, dos sacerdotes e dos mercadores”.

Havia mais: “... o pouco que restava era submetido a pesados impostos por Roma e por déspotas locais, em sobreposição aos dízimos tradicionais necessários à manutenção do templo.” Não há alguma semelhança? “As pessoas viam suas terras ancestrais passar às mãos de estrangeiros devido às dívidas que contraíram para pagar tributos. Seu mundo se caracterizava pela pobreza, pela opressão e pela injustiça”.

Daí, as perguntas que se faziam: “Onde estava Deus? Por que ele não aparecia para resgatá-los?” O ensaísta comenta: “Não admira que Jesus tenha sido inspirado a compor uma oração que pedia pão e o cancelamento das dívidas!’.’

Mas Jesus, nascido num local distante e em meio a gente comum da região, tinha ideias próprias e avançadas sobre o momento crítico, nesse cenário de devastação e de desespero. Ele ouvira os sonhos dos profetas por um mundo melhor. 

Secher escreve: “Nos ensinamentos de seus precursores naTorá, ele vê as instruções para criar tal mundo. De pé no alto da montanha, ele exclama que o reino de Deus está próximo, que chegou o tempo da redenção: que os deprimidos conhecerão dias melhores; que os enlutados serão consolados; que os famintos podem esperar ter a barriga cheia; que os ricos terão seu merecido castigo; e que os pacificadores terão a primazia. Em consequência, ele conclama: não percais as esperanças, porque todos haveremos de participar do mundo mais justo que Deus prometeu. Mas diz ele, há coisas a fazer para que isso aconteça, e ele começa a esboçar essas ações”.

Não se pode apenas criticar ou omitir-se. Cada um terá de dar a sua parte, a sua contribuição, por menor que seja para a construção geral. A injustiça flagrante não é apenas individual ou pessoal, mas sistêmica e estrutural. 

O Dalai Lana completaria por mim o raciocínio: 

“Só existem dois dias do ano em que nada pode ser feito.
Um se chama ontem e o outro se chama amanhã.
Portanto, hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver”. 

 

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