Resgate de uma tradição

Manoel Hygino / 12/06/2018 - 06h00

O evento, na confluência de tranquilas vias do bairro de Santa Efigênia, no sábado, dia 9, resgatou uma tradição de Belo Horizonte: a festa junina, visando levantar recursos para a Santa Casa, o primeiro hospital da capital mineira e hoje o maior em atendimento ao SUS (Sistema Único de Saúde) do Brasil. Antes, a comemoração era na Praça Hugo Werneck, outrora XV de Novembro. 

Lá, quando a noite descia, montavam-se barraquinhas, com atrações diversas da culinária, sorteios, leilões, músicas de sucesso que os namorados, ou pretendentes a sê-lo, se ofereciam. O serviço de som era de Ítalo & Andrade, pioneiro por estas bandas e que, evidente, nada cobrava dos organizadores nas noites alegres e cordiais. Afinal, o motivo era nobre e os dedicados fazedores de som não destoavam. 

Os que distribuíam música apropriada às circunstâncias eram os mesmos que colocavam os alto-falantes cornetas ao longo da Afonso Pena para os desfiles de Carnaval e toda outra comemoração. Comercial e tecnicamente não tinham competição.

Também nos acontecimentos oficiais, sempre que necessário, lá estavam Bené Andrade, irmão do Delê, da Orquestra, e Ítalo Coaci, que tinham oficina na Tupinambás, quase esquina de Amazonas. O terceiro mosqueteiro, o mais alto, era Maurício Gorle, filho de libanês, ex-soldado da Aeronáutica, sempre disposto aos mais diversos labores. 

Foi assim durante a construção do atual Hospital da Santa Casa, com a população contribuindo para a grande obra que tanto serve a Minas e ao país. Hoje, o trecho do logradouro virou estacionamento de linhas de ônibus, como a do Move. O desenvolvimento da cidade acabou com as barraquinhas, que eram divertimento e ponto de encontro para jovens que ali comemoraram e mantiveram namoro por décadas.

O resgate da festa junina, ali bem perto, na avenida Brasil com Padre Marinho, tem assim um significado histórico e social. Recompõe-se o quadro de Belo Horizonte dos anos 40, quando a cidade era mais amena e feliz. Mas a finalidade do “evento”, como ora se gosta de dizer, é a mesma, o que lhe dá valia material e calor humano. 

A festa amável deste e de tantos outros junhos é a mais antiga do Brasil, pois registrada por Frei Vicente do Salvador, em sua “História do Brasil” até 1627, que ressaltava que as pessoas a elas acudiam, “por causa das fogueiras”, o que não há mais senão nas pequenas comunidades interioranas. 

Essas celebrações juninas foram trazidas para cá pelos colonizadores portugueses, ele próprios cultores da milenar tradição, marcada pelas festas de Santo Antônio, em Lisboa; São João, no Porto e em Braga; e São Pedro, em Évora e Cascais. Na Europa, elas coincidem com o início do verão, daí antigamente serem acompanhadas por adivinhações e pelo culto ao fogo.

Quanto às fogueiras, conta a tradição cristã ter sido um compromisso de Santa Isabel, prima da Virgem Maria, de mandar erguer uma enorme fogueira para anunciar o nascimento de seu filho, João Batista.

Se o costume, aqui e agora, não é absolutamente igual ao passado, a causa é nobre. 

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Comentários