Sintomas dramáticos

Manoel Hygino / 29/05/2018 - 06h00

Quando se atravessa situação como a do Brasil de nossos dias, penso no clima que antecedeu à Revolução Francesa e no da Revolução Russa, cujo centenário se registrou no ano passado. Seria prudente que mais pessoas lessem a respeito desses dois momentos históricos, para (quem sabe?) oferecer alguma contribuição à amenização e, depois, à solução do problema que ora nos atormenta. 

No caso específico da segunda, seria oportuno lembrar como era Petrogrado, depois Leningrado e antes São Petesburgo, cidade então com mais de dois milhões de habitantes e capital da Rússia. No inverno de 1916, o soberano ainda estava em seu palácio e uma aristocracia cosmopolita dançava pelos salões. Em verdade, porém em dezembro daquele ano, houvera uma crise no governo, mas ninguém compreendia plenamente como a situação se agravava rapidamente. Para o historiador Alan Moohead, já era explosiva. 

Lá como cá agora, o povo estava insatisfeito e se sentiam sintomas sérios de uma extrapolação. Na capital dos russos, assistiam-se a distúrbios e não se sabia a maneira de preveni-los. Um dos personagens destacados do período era o padre Gapon, que as multidões aplaudiam e merecia respeito de setores oficiais. Em 1 de janeiro de 1917, ele mandou um bilhete ao Czar dizendo: 

“Não acrediteis nos ministros. Eles vos estão enganando com respeito ao verdadeiro estado das coisas”. Enquanto isso, as várias correntes políticas defendiam ideias e atiçavam mais lenha à fogueira.

Aconteceu o que se sabe e que repercute até hoje na grande nação (e no mundo), embora decorridas décadas da vitória da revolução bolchevista. O americano John Reed, autor de “Os dez dias que abalaram o mundo”, descreve bem a situação da segunda metade do século XX. Nem tão longe estamos.

Ao encerrar-se a terceira semana do quinto mês de 2018, neste Brasil descoberto por Cabral e alvo de tamanhas falcatruas de maus brasileiros e não brasileiros no decorrer de tantos decênios, identifica-se o clamor de importantes segmentos da sociedade. Contra políticos, determinada imprensa e jornalistas, homens de empresas, líderes partidários e todos mais quanto possam existir, inclusive os incentivadores de confusão e de distúrbios, nas cidades e no campo. 

A greve dos caminhoneiros é a continuação de uma série de fatos sintomáticos de ameaças ao bem-estar da comunidade e do próprio estado democrático de direito, sobre o qual tanto se fala e pouco de protege. A paralisação do transporte nas rodovias do país põe em risco o abastecimento geral da população, do alimento aos medicamentos e gases medicinais, a locomoção das crianças às escolas, dos trabalhadores que têm de ir e vir à jornada, além das mães de família que precisam comprar os produtos, vegetais já murchos ou apodrecidos, para encher a barriga da prole.

E, se falta pão, corre-se perigo. A Revolução Russa durou três anos e só terminou com derramamento de muito sangue. 

Perigos à vista. 

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