O Centro e o caos

Mateus Simões / 19/06/2017 - 06h00

A situação do centro da cidade tem se deteriorado em uma velocidade inacreditável nos últimos meses, especialmente no que se refere à presença ilegal dos ambulantes, que eram dezenas no início de 2016, centenas no início de 2017 e, menos de cinco meses depois, são já quase dois mil. E aqui, marco posição: não se trata de liberdade de iniciativa, mas de concessão de privilégios aos que a prefeitura escolhe proteger, permitindo que trabalhem sem alvará ou tributação, obstruindo calçadas e intimidando comerciantes.

Sei que a causa do problema é complexa, pelo momento econômico, pelo empobrecimento de Belo Horizonte e o enfraquecimento da economia local — em especial do setor de construção civil, sem perspectiva de retomada. A solução, contudo, não é tão misteriosa: o centro deve ser retomado imediatamente, pois permitir a apropriação individual do espaço púbico, na forma como vem acontecendo, é talvez o único tipo de privatização com o qual não posso concordar, já que sacrifica a todos em prol dos que resolveram descumprir as regras com o beneplácito oficial.

A situação irregular dos ambulantes tem me preocupado desde que tomei posse como vereador. Foi pauta de minha primeira reunião na prefeitura e de várias outras depois dela — inclusive uma audiência pública, com a presença do secretariado, que voltou a prometer providências que, contudo, não vi ainda serem adotadas. Ao contrário, começo a perceber uma perigosa postura vacilante do Poder Público, que tem alardeado que não pode retirar as pessoas da rua enquanto não tiver encontrado uma “solução” para o problema.

A única “solução” possível é a retirada dos irregulares, porque agridem a propriedade pública e privada ao permanecerem como estão. Digo mais. Não sou o único que percebeu a falta de ação da prefeitura. Os aproveitadores de plantão também já vislumbraram que virão benesses, prêmios, bolsas, proteções mil aos que forem retirados da rua, quando forem, e, nesse meio tempo, o número de ambulantes vem crescendo, para que mais possa ser extorquido da prefeitura em troca da devolução do espaço público ao povo de BH. Literalmente, nossas ruas estão sequestradas e o valor do resgate vem crescendo pela fragilidade do Poder Público em responder. E não se trata apenas da falta de ação da prefeitura, pois a Polícia Militar e a Fiscalização Tributária Estadual tinham obrigação de combater o contrabando realizado a olhos vistos, mas preferem passar assoviando ao lado do problema.

A situação do centro é periclitante e tem piorado. Nesses momentos, é preciso firmeza ao invés de leniência, responsabilidade ao invés de proselitismo e visão de longo prazo ao invés de populismo.

 

 

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